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DEVANEAÇÕES ENTRE FILOSOFIA E PSICANÁLISE

25/5/2009

O filósofo Bento de Espinosa, em sua obra magna Ética, nos apresenta a sua concepção de liberdade. Concepção radicalmente oposta à da tradição judaico-cristã, na qual a liberdade se constitui como livre-arbítrio, ou seja, como se nós (seres humanos) tivéssemos sobre nossos atos um poder absoluto e tirássemos apenas de nós mesmos as nossas determinações, sendo livres para escolhermos entre isso ou aquilo outro. Mas, para apreendermos a concepção espinosana de liberdade, temos que abandonar essa idéia de livre-arbítrio e compreendermos a natureza e a origem das afecções humanas.


Segundo Espinosa, somos modificações (modus) da substância única imanente Deus e temos, enquanto seres singulares, certa potência de ser, existir e agir. A essa potência de atividade de auto-conservação e de esforço de perseverar na existência, denominou conatus. As afecções (affectio) se referem à intercorporeidade de cada corpo humano que se relaciona com outros corpos, afetando e sendo afetado por corpos exteriores. A nossa mente é a consciência do que se passa no nosso corpo, portanto, a consciência das nossas afecções, designada por Espinosa de afeto (affectus). Quando uma causa exterior age sobre nós e o que se passa no nosso corpo/mente é efeito dessa causalidade externa, nosso conatus é apenas causa parcial e inadequada de nós mesmos, e temos uma paixão (passividade). Quando nosso corpo é a causa principal das nossas afecções e a nossa mente é a causa principal dos nossos afetos, somos causa total e adequada, e temos uma ação (atividade), sendo nosso conatus causa completa de nossas ações. Na parte IV da Ética, Espinosa escreve que o poderio excessivo das paixões é a servidão e o das ações, a liberdade.

Podemos notar que o mecanismo das paixões encontra-se na base das afecções e que as paixões são tratadas por Espinosa não como corrompimento da razão pelo corpo, vícios e pecados (como na tradição judaico-cristã), mas como naturais, constitutivas da natureza humana, portanto como algo universal e necessário. É por isso que, para Espinosa, a razão não tem império absoluto – como no cogito cartesiano - sobre as afecções e nem pode arrancá-las dos seres humanos como se arrancasse “ervas daninhas”, mas o que a razão pode sim é moderar as afecções e conhecer suas causas e seus mecanismos de operação na vida humana. Assim, a liberdade espinosana encontra-se na passagem das paixões (afetos passivos) às ações (afetos ativos) e, portanto, numa conquista humana (e não numa livre escolha) de nos reconhecermos como causa de nossos afetos, como causa de nossa própria vida. Isso significa também que se trata de uma concepção de liberdade que tampouco se opõe à noção de necessidade (portanto, de determinação), a qual, espinosanamente falando, equivale a uma noção de identidade entre a totalidade e as leis da Natureza. Trata-se, portanto, de uma liberdade que não deixa escapar a conexão entre a parte e o todo, entre os seres singulares e a totalidade. Totalidade que, segundo Chauí, se em Espinosa equivale às leis da Natureza, em Hegel equivale à cultura, e, em Marx, à formação histórico-social.

Ora, parece que não seria totalmente descabível estabelecer uma possível relação entre a conquista humana desta liberdade tratada na Ética com o que poderia ser um dos objetivos do processo analítico em Psicanálise (pelo menos em uma clínica que pensa o sujeito a partir de sua constituição histórica e social). Tal processo pode nos levar ao conhecimento das nossas irracionalidades através de uma via racional e afetiva, de forma a nos tornarmos conhecedores de nós mesmos, a nos reconhecermos como causa de nossos desejos e a nos responsabilizarmos por eles. Neste processo de conquista, deixamos de ser simples joguetes dos nossos desejos inconscientes ao adquirirmos consciência de nossas determinações e podemos, assim, passar a agir no mundo com autonomia. E, para Espinosa, o que pode melhor constituir a liberdade que a autonomia?

COMENTÁRIOS:(1)

  • 10/3/2010 07:06:12
    Nome:PIERRE
    Comentário:Spinoza... 1 judeu de Amsterdam que é excomungado, passa uma vida aparente-mente cinzenta&asséptica, mas quero chamar a atenção pro quanto o leque de Afetação dele é GI-GAN-TES-CO, o poder de Afetar e ser Afetado, que não tem nada a ver com comandar exércitos. Tem a ver com o que deixa entrar... toooodos os lugares do mundo sem sair do lugar...
    Lúzcia, veja parte do txt de excomunhão de Spinoza. É uma demonstração da força de reação da comunidade judaica que repudia a substituição do Deus revelado das Escrituras pelo Deus Natureza de Spinoza:
    "Pela decisão dos anjos e julgamento dos santos, excomungamos, execramos, expulsamos, e maldizemos Baruch de Spinoza... Maldito seja de dia e maldito seja de noite; maldito seja quando se deita e maldito quando se levanta; maldito seja quando sai, maldito seja quando regressa ... Ordenamos que ninguém mantenha com ele comunicação oral ou escrita, que ninguém lhe preste favor algum, que ninguém permaneça com ele sob o mesmo teto ou a menos de 4 jardas, que ninguém leia algo escrito ou transcrito por ele..."
    Spinoza, como todo grande filósofo, é um traidor da comunidade judaica ou da burguesia holandesa, ou da casta dos filósofos ou do racionalismo do qual ele é herdeiro. O traidor por excelência... são grandes traições. Totalmente escandaloso&absolutamente herege...

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