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ESPAÇO ETNOPSI

29/5/2009

Há alguns meses fui convidado a dar uma palestra sobre Icaros (cantos sagrados que veiculam a sabedoria curativa nos povos originários da Amazônia), em Buenos Aires, por ocasião de uma exposição de arte amazônica e medicinas tradicionais desses povos originários.


No final da palestra, na qual tinha me ocupado de contextualizar sentidos complexos desses povos e dos sentidos sagrados desses cantos, apresentei a gravação de um icaro de um xamã do povo shipibo. Havia escolhido um canto que era realmente tocante, e preparei a platéia para que pudesse “escutar” de uma vez só.
 

Agradeci e abri o espaço para as perguntas. Na platéia havia dois artistas desses povos originários da Amazônia, de modo que os convidei a subir ao palco para que me ajudassem a responder as perguntas do público.

 
Uma das perguntas se referiu à efetividade que poderia ter o icaro a partir de um CD. Explicitei que nos rituais dos quais eu tinha participado na floresta, jamais um xamã havia colocado um CD no lugar da sua própria voz, e que a vivacidade do espírito provavelmente não resistisse à tecnologia do CD. Porém, já faz algum tempo, em São Paulo, num contexto ritual, mas não o dos povos originários, eu havia experimentado uma situação em que quem manejava a sessão havia colocado um CD no lugar da própria voz. Minha própria experiência estava longe de ter o mesmo valor curativo que eu havia recebido nos contextos dos povos originários da Amazônia.
 

Em seguida, um dos artistas presentes chamou a atenção para o valor do som em si mesmo. O poder que veicula o som. E que a gravação guardava muito da memória desse som, apontando que ele havia percebido como a voz gravada daquele xamã havia mexido com as pessoas da platéia.

 

Quis abrir as discussões deste espaço com esse exemplo, porque ele vai nos introduzir nas questões que podem conformar os limites e alcances de uma interface entre Psicanálise e Antropologia, e inclusive pensar numa possível Etnopsi a partir de problemáticas sul-americanas.


Poderíamos dizer que a preocupação com essa interface começou com o início da própria Psicanálise. Mas a preocupação pela interface Psicologia-Antropologia havia começado antes, com o início da própria Antropologia. As discussões foram permeando então diferentes corpi teóricos ao redor de duas questões fundamentais: de um lado, a preocupação por entender a vida dos povos; de outro, a subjetividade humana. Só muito depois, após a consolidação da Psicanálise, foi que a Psiquiatria veio a se unir a estas discussões, pela mão da etnopsiquiatria de Devereux, olhando as crenças e sabedorias de outros povos como possíveis contribuições para o conhecimento ou a reformulação do conhecimento científico ocidental da psique humana.
 

Nas últimas décadas o mundo contemporâneo foi tornando mais complexos os processos de subjetivação, o que fez com que a alteridade e a ética entrassem no foco do pensamento de filósofos e cientistas sociais perante fenômenos tais como: o eu, que ficou fragmentado; os movimentos migratórios, que ficaram mais intensos; a tensão global-local, que se tornou imprescindível, tanto politicamente, como na compreensão nos seus múltiples níveis - o excesso de informação e comunicação, a tecnologia ocupando cada vez mais espaço - até o ponto em que praticamente tudo na cultura é “assistido”.

 

Frente a tantas mudanças sociais, políticas e subjetivas, aquelas primeiras (e não tão primeiras) articulações da psicanálise sobre a cultura, a criatividade, a arte, o sagrado, a agressividade (só para mencionar alguns dos fenômenos de diferentes registros da experiência humana), ficaram não só obsoletas, mas também inapropriadas, irritando a antropólogos e grupos de direitos humanos. Podemos dizer, então, que essa interface não é tranqüila para os psicanalistas, mas, ao mesmo tempo, frente às demandas do mundo contemporâneo, não podemos nos fazer de surdos.


É muito comum encontrar na clínica um paciente que, ao mesmo tempo em que faz um tratamento psicanalítico, se vale de elementos de outra cultura: faz yoga, pratica acupuntura ou medicina chinesa, pratica Tai Chi ou capoeira, faz alguma arte marcial ou massagem tailandesa, participa de um ritual curativo, etc. Pode ser ainda que a empresa em que esse nosso paciente trabalha o tenha mandado a um país distante ou o premiado com uma viagem a Bali, ou ainda ser ele mesmo um imigrante, ou filho de imigrantes, ou, ele pode, ainda, sentir que não pertence à cultura onde nasceu. Quer dizer, atravessamos um tempo e espaço em que a configuração do mundo, do próprio self e dos outros vão acompanhados de intensos processos de hibridização ou mestiçagem, processos que nem sempre o individuo é capaz de integrar à sua própria pessoa.
 
Voltando ao exemplo primeiro, vêm à tona duas questões: por um lado, a legitimidade da hibridização como processo complexo, de ambos os lados: eu e o outro. O nativo reivindicou o CD. Eu, sofredor do excesso tecnológico, reivindicava a vivacidade da voz. Ambos no mundo contemporâneo: pouco tempo para tecer intimidade, cumplicidade, comunicação verdadeira (silenciosa), revelando a pergunta fundamental: em que medida é possível acessar a origem e mantê-la perto da vida e do encontro com o outro? Daí, a segunda questão: qual o uso (no sentido winnicottiano do termo) que uma pessoa pode fazer dessa alteridade?
 

Na clínica observamos cada vez mais freqüentemente a dificuldade das pessoas estarem em condições de dialogar com esse outro, e ainda, com a outra cultura. Aquilo que é vizinhança se apresenta no mundo contemporâneo como o desconhecido familiar. Compreender o outro não só é difícil porque as representações que esse outro maneja são diferentes ao nosso mundo, mas, fundamentalmente, porque acessar o outro inclui um processo de subjetivação para o qual não necessariamente estamos prontos.

 
Portanto, este espaço etnopsi quer se constituir, em princípio, a partir dessas duas questões fundamentais em torno de processos dados num espaço-entre (Bhabha), que atravessa a clínica contemporânea: o acesso à origem e à tradição e os processos de subjetivação, que implica dar lugar ao outro. Espaço de diálogo, mas fundamentalmente de mestiçagem, para aqueles que desejem contribuir com reflexões e trabalhos que, levando em conta a tradição dos povos originários ou não ocidentais, abrem clareiras para a clínica contemporânea.

COMENTÁRIOS:(1)

  • 8/9/2009 17:42:54
    Nome:MARIA EMILIA MENDONCA
    Site / Blog:www.ginasticaholistica.com.br
    Comentário:Um comentário singelo: quem sabe ouvir o CD no qual ressoa o canto de um xamã seja o primeiro chamado para um contato mais real. Que bom te encontrar por aqui, Walter. Carinho .M E.

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