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BREVE ENSAIO SOBRE O CONCEITO DE “PERLABORAÇÃO” EM FREUD E ADORNO

26/8/2009

Este texto tem o objetivo de iniciar uma discussão em torno da relação entre as pesquisas de Sigmund Freud e Theodor Adorno a respeito da atividade psíquica denominada “perlaboração do passado”. A escolha deste conceito requer estudos a respeito dos processos psíquicos da repetição e atuação, rememoração e esquecimento, assim como a compreensão dos conceitos de autonomia e emancipação. No entanto, neste momento, restringiremo-nos a dois textos entendidos como base deste estudo; são eles: “Recordar, Repetir e Elaborar” (Freud, 1914) e “O que significa elaborar o passado” (Adorno, 1963).

Entre os conceitos Aufarbeitung, utilizado por Adorno no texto "O que significa elaborar o passado", e Durcharbeiten, utilizado por Freud no texto "Recordar, Repetir e Elaborar" – ambos traduzidos para o português como elaborar [1] – está presente uma diferença e uma relação conceitual importante. Após um diálogo com o professor alemão Christophe Türcke, no Colóquio Internacional de Teoria Crítica de Piracicaba/SP em Ago/2006, optou-se pelas seguintes traduções: “perlaboração histórica” e “perlaboração psíquica”, respectivamente.

O termo freudiano “perlaboração psíquica”, Durcharbeiten, expressa o trabalho de travessia, de passar por dentro; durch traduz-se como travesssia e Arbeit trabalho. Quanto ao conceito Aufarbeitung utilizado por Adorno, Türcke diz que esse é um dos poucos conceitos adornianos que ele não considera muito adequado, uma vez que todo o texto desenvolve a idéia de um trabalho de travessia do passado, ou melhor, também de Durcharbeiten, só que desta vez em um plano social e não psíquico como em Freud, daí se pensar em “perlaboração histórica[2]”. Türcke supõe que questões políticas vigentes no momento levaram Adorno a escolher um conceito e não outro.

Sigmund Freud (1914) entende a “perlaboração” como a atividade que possibilita a superação da repetição de uma situação traumática e/ou aprendida. Repetição esta, entendida aqui como uma atuação irrefletida, não imbuída da consciência de si, que pode implicar uma espécie de “fuga para a frente”, sem lidar com o passado doloroso. Este comportamento atuante nos permite compreender a natureza da compulsão a não lidar com o pesar do passado e a dor da memória. Assim, o esquecimento e a ação não refletida são engrenagens da compulsão à repetição.

A compulsão à repetição é a maneira do indivíduo não recordar e, portanto, não lidar com o que foi reprimido. O recurso subjetivo para superar a compulsão à repetição seria o trabalho da “perlaboração” que, segundo Sigmund Freud, é um trabalho árduo e de grandes transformações para o indivíduo.

Deste modo, em um primeiro momento, a “perlaboração psíquica”, seria a reconciliação com o material reprimido: um trabalho interno de compreensão e aceitação das resistências psíquicas para, por intermédio do que foi trazido à consciência, lidar com a dor da lembrança.

É importante ressaltar que a abordagem freudiana deste artigo é clínica, uma vez que se tratam de observações ligadas a técnicas terapêuticas usadas para a resignificação a-posteriori do material reprimido. No entanto, é preciso observar que sua concepção da psicologia individual não deixa de ser eminentemente social:
O contraste entre a psicologia individual e a psicologia social ou de grupo, que à primeira vista pode parecer pleno de significação, perde grande parte de sua nitidez quando examinado mais de perto. É verdade que a psicologia individual relaciona-se com o homem tomado individualmente e explora os caminhos pelos quais ele busca encontrar satisfação para seus impulsos instintuais; contudo, apenas raramente e sob certas condições excepcionais, a psicologia individual se acha em posição de desprezar as relações desse indivíduo com os outros. Algo mais está invariavelmente envolvido na vida mental do indivíduo, como um modelo, um objeto, um auxiliar, um oponente, de maneira que, desde o começo, a psicologia individual, nesse sentido ampliado mas inteiramente justificável das palavras é, ao mesmo tempo, também psicologia social (FREUD, 1922).

Theodor Adorno (1963) concebeu a “perlaboração do passado”, partindo dos estudos clínicos de Freud, porém ampliou o conceito, referindo-o a um processo histórico-social preciso: o holocausto.

Inserido em um contexto histórico muito preciso, o da reconstrução da Alemanha e da progressiva instauração de um modelo capitalista triunfante na República Federal Alemã, Adorno escreve sobre a impossibilidade de fazer face aos horrores cometidos pelo nazismo. Segundo o autor os alemães dos anos 50 desejavam “esquecer” esse passado recente porque seu peso era tão forte que não se podia mais viver no presente; porém: “tentar se libertar do passado sem antes lidar com ele, escapar – do que ainda está presente – é o mesmo que viver à sua sombra” (ADORNO, 1963).

Deve-se observar que o autor não está enfatizando o esquecer natural e necessário à vida mas sim o esquecimento “induzido”, o não querer saber ou o fazer de conta que não sabe. Em outras palavras, Adorno aponta para este passado como algo que deve se tornar presente não para permanecer ou para ser recriminado, mas para ser “perlaborado” e, se possível, esquecido. Neste sentido, a falta de domínio sobre o passado e a pouca consciência diante o horror presente na sociedade revela a possibilidade de algo semelhante a Auschwitz se repetir.

Para finalizar entende-se que o trabalho de “perlaboração histórico-cultural”, tal como tematizado por Adorno e o trabalho de “perlaboração psíquica”, como conceituara Freud se entrelaçam no constante movimento da “perlaboração do passado”.

 
[1] O verbo substantivo Durcharbeiten, segundo Laplanche, encontrou um equivalente satisfatório no termo inglês working-through. Para a tradução do português, o autor sugere que usemos expressões como elaboração interpretativa ou neologismos como, perlaboração e explica que o termo elaboração – assim como foi traduzido para o português – corresponde melhor aos termos alemães Bearbeiten ou Veerarbeiten, que estão presentes em outros textos de Freud. Ref. Dicionário: LAPLANCHE e PONTALIS Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
[2] A pesquisadora e tradutora Gagnebin em seu livro “Lembrar Escrever Esquecer” (2006) também sugere os termos perlaborar e travessia como uma melhor tradução para os conceitos citados; sendo assim, a informação veio a confirmar as indagações acima.

COMENTÁRIOS:(13)

  • 7/9/2009 15:26:57
    Nome:EFRAIM CHAIN
    Comentário:Lembrar para esquecer: eis o caminho, o repetir na vida ou em análise. Na análise, o repetir sem rumo é dor sem fim - algo comum nas análises intermináveis. O rumo outro parece ser a construção em análise: desconstrução das "lembranças encobridoras" e do "romance familiar" e apropriação histórica do sujeito. A questão é, Maira: Haveria possibilidades terapêuticas que pudessem fugir a isso: a cognição dos sintomas e o treinamento dos comportamentos não seriam suficientes? Ou não bastaria desentravar a verdade do sujeito no desfiladeiro dos significantes e aí libertar os desejos? É um iníco de conversa.

  • 7/9/2009 17:12:59
    Nome:LUIZ HENRIQUE
    Site / Blog:psicorama@psicorama.com.br
    Comentário:Há na clínica,cada vez mais, pessoas que não têm o menor conflito ao relembrar, e que também nem se utilizam muito do tal "romance familar": esfregam suas memórias na cara de si mesmas e na do terapeuta - sabem que o simples lembrar é o que fazem no dia a dia - sabem que repetem os traumas violentos a que se sentiram submetidos. Prá êles, o saber e a revelação não dizem nada; buscam outro tipo de conhecimento além do que viveram e do que nunca poderá ser acomodado no esquecimento. Para mim, Maira, essas pessoas acham-se, paradoxalmente, como eternos culpados e injustiçados. Não se responsabilizammuito pelo passado, e ajem como os judeus que não querem parar nunca de fazer colônias na Cisjordânia. Perlaborar é uma função para além do esquecimento e talvez haja algo no reconhecimento coletivo das precariedades.

  • 10/9/2009 15:51:24
    Nome:MAÍRA FERREIRA
    Comentário:Sim. "Lembrar para fazer a travessia", "lembrar para perlaborar.." - e claro! com toda a dor e complexidade que esta atividade psíquica envolve.
    Como bem provocou E. Chain não basta tomar consciência, o trabalho da perlaboração não se limita a uma tarefa cognitiva. É preciso, como salientou FREUD, "atravessar" a pp história: POR MEIO do que foi trazido à consciência, LIDAR COM A DOR DA LEMBRAÇA!
    Por fim, penso que esquecer é uma possibilidade, algo que acontece em alguns casos...mas não é o "objetivo" da perlaboração. Se brincarmos com isso, talvez o "objetivo" da perlaboração seja atenuar as possibilidades da repetição.
    Agora, Luiz Henrique, será que essas pessoas que vc cita não estão, exatamente, resistindo a lidar com esse passado doloroso? Daí a repetição. Daí o lugar ressentido de eternas vítimas.
    Daí, principalmente, a "atuação/repetição" que vc menciona dos judeus..
    Repete-se para não lembrar, para não lidar a dor. No entanto, é uma fuga para frente que mantêm o sujeito no mesmo lugar!
    Entendo que aqui temos um paradoxo!
    Como bem salientou ADORNO: “tentar se libertar do passado sem antes lidar com ele é o mesmo que viver à sua sombra”.
    Obrigada! Boas conversas..

  • 13/9/2009 23:11:57
    Nome:LOREDANA
    Site / Blog:www,psicorama.com.br
    Comentário:"Os trabalhadores enganados dependem diretamente daqueles que que ainda não conseguem enxergar alguma coisa a falar-lhes de seu engano. Seu ódio pelos intelectuais sofreu uma mudança correspondente. Alinhou-se com as as opiniões correntes do senso comum. As massas já não desconfiam dos intelectuias por eles terem traído a revolução, mas porque eles talvez a queiram; com isso, revelam quão grande é sua própria necessidade de intelectuais. A humanidade só sobreviverá se os extremos se unirem. "Seu" Adorno disse isso em sua 9a. "mensagem na garrafa", d'um jeito meio profético. Mas convenhamos: até que parece que é... E continuamos no tititi...

  • 7/10/2009 21:18:12
    Nome:MAÍRA FERREIRA
    Comentário:Querida Lore, vc me inspirou para o segundo texto..Gde abraço.

  • 15/5/2010 14:09:15
    Nome:MAÍRA SOARES FERREIRA
    Comentário:Contato - www.mairasoaresferreira.blogspot.com

  • 8/3/2012 16:31:39
    Nome:WOLNEY
    Site / Blog:htt://www.soprando.net
    Comentário:Olá, no cabeçario está escrito (autoria) colaboradores. Há um autor? Seria o Luiz Henrique Alves? (nos comentários, alguém faz referência a ele). Explico: gostaria de citar este post em um artigo que estou escrevendo. Obrigado, Wolney

  • 25/4/2012 16:21:20
    Nome:MAIRA SOARES FERREIRA
    Comentário:olá, a autora do artigo é maíra soares ferreira. att.

  • 7/9/2013 23:18:46
    Nome:7PZZ2HXR45S
    Site / Blog://www.facebook.com/profile.php?id=100003443606089
    Comentário:Same old Tory Policies which penalise the prnudet savers.What is the point in saving for the future when at the first sign of trouble ie sickness or unemployment, any reasonable saved amount means no help ? I am not against any interest made counting as taxable income and a reduction being made for this amount,but really to deduct a31 a week or a352 a year on every a3250 over a36000 is ridiculous.If I knew how to get 20%+ pa nett return on savings, I would be a financial genius and not be in need of any benefits at all !

  • 9/9/2013 07:54:35
    Nome:M0IZMSWJUFMD
    Site / Blog://www.facebook.com/profile.php?id=100003443548150
    Comentário:an antistrefame ton "//zssaonfu.com">kanpae kai ton typo se thesi stin koilia? me ena slalom grigoro oute kan treksimo tha briskotan stis gomenes...xixi

  • 9/9/2013 15:22:50
    Nome:ONX34PTHGHG
    Site / Blog://www.facebook.com/profile.php?id=100003443367270
    Comentário:I love this story. I could feel the change as Lauren began to crteae joy. I wonder though why you think this is somehow an unconscious' within Lauren lying hidden' from her? This implies an interiority which is personal but unknown. I guess there may be a vast repository of a lifetime's sensory, cognitive and emotional data, which can be drawn on when the interaction demands the creation of a new story. But how is this different from any narrative fiction writing? I once asked a client what it would be like if she regarded the world as inherently benign (she experienced it as hostile). She went on to do well. Perspective shift/different filters (co)crteae a new reality. Not sure we need much more than right now. //sgvajnes.com [url=//wgsyoy.com]wgsyoy[/url] [link=//lnstxdak.com]lnstxdak[/link]

  • 9/9/2013 20:48:40
    Nome:7N0OTBMJWDWD
    Site / Blog://www.facebook.com/profile.php?id=100003443307172
    Comentário:. Of course it is "//yuahxvsmx.com">tepnitmg to think it is sensory memory she's drawing on as she mentions everyday activities and experiences (hugs son, rides on bus, talks with daughter which may well have happened at some time in past). I do love your gathering Freud into the community of Brief therapists and if it is necessary to find a connection with unconscious then I can live with that smiling as i consider Steve's adoption of Words were Originally Magic for what remains a favourite read I return to regularly.svea

  • 10/9/2013 04:02:35
    Nome:WHETWOHNFU
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