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OS CONTORNOS DA TENTAÇÃO: BEATITUDE ATRAVÉS DA VOLUPTUOSIDADE E COM UM QUÊ DE MULHER

10/9/2010

"Nem o que está próximo, nem o que está distante
 
aquieta o coração profundamente perturbado".                                                                                               
                                             Fausto - Goethe
 
 
  
Qual o alvo da busca adictiva? Pergunte a um enólogo sobre vinho, ele falará sobre sabores e saberes, descreverá refinamentos sobre buquês e safras, harmonizações – coisas prazerosas; talvez fale até das delícias do torpor e da embriaguez. Mas um conhecedor de vinhos não é um adicto, não é um dipsomaniaco.
 
Com quê se parece aquela mordaça enrijecida no rosto do aspirador de cocaína: algo relativo ao prazer ou à felicidade? O que dizer da agressividade com que se relaciona, da hostilidade das intervenções, das punhaladas na ponta da língua, de suas desmedidas revelações, da avidez para descortinar a verdade última? Parece que incorporou o mestre Sade: o falastrão passa rapidamente a intensas provocações, calúnias, exposição de intimidades; à ironia, segue o deboche, o sarcasmo, o escárnio: deve dizer tudo. Agudeza de espírito, solidariedade? Rebaixamento de tensão, evitar o desprazer?
 
Nem sempre o que se observa em uma simples padaria é a expressão de confraternização entre seres buscando conforto entre iguais; só puros desregramentos deflagrados pelo álcool.

Alguém que já entrou em contato com uma pessoa com ressaca de “rave”, onde se usou ecstasy, não testemunharia um desmoronamento moral, rachaduras na auto-estima,  chagas à mostra?

 
 
 
“Relembre a melhor gozada e multiplique por mil”... “Isso é melhor que qualquer pinto do mundo”, são as indicações do extremada volúpia prometida pela heroína em “Transpoting”.[1] E os meninos de rua, roubando para comprar mais uma pedra de Crack, com o corpo transtornado revelando um cérebro envenenado: é a imagem do terror;  “bateu a “nóia”, dizem, e sempre querem mais uma e outra vez. É o acelerado desmoronamento do aparelho psíquico.
 
Baudelaire em Os Paraísos Artificiais [2], entre outros escritores e poetas, fala desse fascínio ancestral do homem pelas drogas. Neste livro, faz uma brilhante descrição dos estados de alma produzido pelo haxixe (etimologicamente, assassino) . É como ir ao inferno à procura de luz: procurando uma essência transcendente, divinal, defronta-se com a besta que mora em si. Baudelaire provou o que disse.
 
Não pode ser prazer, em princípio, o que articula essa ação: algo o ultrapassa.  Essa sede pelo infinito só pode estar organizada por um outro modo de funcionamento mental. Cientistas, filósofos, curiosos de todo tipo, submeteram-se ao fascínio e vivenciaram suas viagens: De Quincey com “Confissões de um comedor de ópio”, “As portas da Percepção” de Aldous Huxley, William Blake em suas produções poéticas e pictóricas, “Memórias Alcoólicas” de Jake London: relatam a  produção psicológica e as ações humanas desencadeadas em suas experiências. Além de comprovar o efeito anestésico, não houve um encantamento de Freud pela cocaína - a droga da felicidade, ou essa é uma história mal contada?
 
O objeto da busca adicta, embora ofuscado, pode ser vislumbrado na dedicatória do estudo de Baudelaire a uma mulher: "J.G.F"  “... a mais comum fonte das mais naturais volúpias” ... “o ser que projeta maior sombra e maior luz em nossos sonhos”. Contundente, continua: “Mas não é a uma morta que dedico esse pequeno livro; dedico-o a uma mulher que embora doente, continua ativa e viva em mim, e volta agora o seu olhar para o Céu, lugar de todas transfigurações. Porque, tal como de uma droga perigosa, o ser humano goza do privilégio de poder tirar prazeres novos e subtis mesmo da dor, da catástrofe e da fatalidade.” Pensava Baudelaire, em uma mulher, “uma Electra distante”, vigilante em suas sofridas viagens e pesadelos, que dissipava “com mão leve e maternal, o sono horrível”. Como escrevia bem esse Charles!
 
A beatitude - já a vivenciamos no mítico nirvana -, esse imaginário lugar que sonhamos e que por raras vezes experimentamos em fragmentos, sonhares, aproximações, não é a condição humana mais comum e cotidiana: esta é dura, cheia de perigos, muitas vezes cinzenta. E se a felicidade que a beatitude nos promete é paradisíaca, por quê não procurá-la? O homem responde à questão e ao amplo desejo há tempos, e das mais variadas formas: fugir, mesmo que fugaz, para Cocanha, Shangrilá, Passárgada; fugir do lodaçal com que o real por vezes nos impregna os sentidos; fugir e buscar “arrebatar o paraíso num só gesto”.
 
Aí estão os contornos da tentação: beatitude através de voluptuosidade e com um quê de mulher.
 
Sade exortou aos libertinos, em sua “Filosofia da Alcova”[3]: “Só sacrificando tudo à volúpia, o infeliz indivíduo denominado homem e jogado à contragosto neste triste universo conseguirá semear algumas rosas sobre os espinhos da vida.” Volúpia! Eis a ideologia do marquês. Mas há o real e ele se contrapõe com dureza aos desejos desmesurados de busca de prazer; o real é um princípio que organiza nosso psiquismo através da simbolização, criando a realidade interna, subjetiva; é estaca estrutural do ser e da cultura humana. Responde violentamente quem o desconsidera ou que, por arranjos de sua história pessoal, criou uma forma de realidade psíquica que o conduz, em eterna recorrência, aos limites do real. E o retorno ao real é sempre duro. 
 
Daí, as transfigurações demoníacas. A volúpia contida na busca pela completude prometida pelas drogas, ou por qualquer outro objeto ao qual se confira poderes para viabilizar essa ilusão, é uma via de mão dupla: as transfigurações imediatas entre paraíso e inferno.
 
Pessoas em estado de intoxicação: álcool, cocaína, anfetaminas, heroína, maconhas, freqüentemente atuam espetáculos como personagens luciferinos.[4] Calígula, Dr. Morreau, Bellmer, descritos por Smirgel, buscam deificações em si através de condutas demoníacas, próximas a um criador universal.
 
Calígula[5], entre estrepolias sem fim, fez uma pitoresca encenação do transtornamento do seu ser: construiu uma ponte feita por barcos atracados uns aos outros e cobertos por terra – uma Via Régia - para calafetar o estreito entre a cidade de Baies e o dique de Pouzales: como se não suportasse hiâncias e delirasse plenitudes. Ia e vinha por ali.
 
Seguindo o caminho das ensandecidas neocriações, Dr. Moreau[6], recriava o universo dos seres viventes. Em sua ilha nauseabunda, produzia os mais extravagantes seres misturando partes do corpo de espécies diferentes. Aliás, há 6-7 anos, os jornais estamparam uma impactante foto de um rato com uma orelha humana nascida em suas costas; ou era o contrário? Vocês se lembram? E agora, com o domínio do código genético, e com esse incerto pendor do humano para onipotências, quais criaturas virão por aí?
 
Bellmer, ilustrador de Sade, é o inventor de bonecas, de corpos desarticulados, transformados: Frankensteins.
 
Em Calígula, o “hybris” - conceito formulado por Smirgel onde o delírio de plenitude se constitui pela criação de neo-realidades - é diretamente ligado à sexualidade perversa: incesto, transvestismos. Em Moreau e Bellmer, a pulsão de dominação aos limites sádicos: excessos, descomedimentos – o ódio à realidade. Destituem os poderes do Pai, para serem o Criador e o parceiro adequado da mãe/Mãe, recriando magicamente uma nova realidade pelo universo sádico-anal em oposição à realidade da genitalidade. É pela instauração da desordem pela desordem, pela instalação da anomia que pervertem a realidade e se refugiam no reino mágico.     
 
Os intoxicados se assemelham em escalas variáveis às personagens luciferinas; querem ser criadores, querem modificar a realidade à sua maneira. Buscam amalgamar, fundir, misturar - o “hybris” – uma outra lógica, outra forma de pensamento, sem as quais não há perversão.
 
Volúpia com as drogas: a busca inglória do paraíso prometido e nunca reencontrado.
 
 
                                                                                    Luiz Henrique Alves

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[1] Livro de Irvene Welsh, recentemente filmado

[2] Baudelaire, C. - Os Paraísos Artificiais, Rio de Janeiro: Ediouro, 2005

[3]  Marquês de Sade, Filosofia na Alcova, São Paulo, Iluminuras, 1979

[4]  Chasseguet-Smirgel, J., Ética e Estética da Perversão – Porto Alegre: Artes Médicas,1991

COMENTÁRIOS:(5)

  • 12/9/2010 12:12:24
    Nome:THEREZINHA ESTEVES
    Comentário:Por burrice, ignorância ou velhice não consegui achar o autor do artigo quase poético e triste. Tive emoções contraditórias ao lê-lo. Só isso já valeu. Gostei

  • 22/9/2010 22:05:31
    Nome:PSICORAMA
    Site / Blog:www,psicorama.com.br
    Comentário:Therezinha Esteves, obrigado pela dica. Já colocamos o nome do autor ao fim do artigo. Abraços

  • 8/9/2013 12:59:16
    Nome:3YOZNY9KOY5M
    Site / Blog://www.facebook.com/profile.php?id=100003443576124
    Comentário:Put's Lamp! ontem estavamos tmdanoo umas brejas num boteco aqui em Guariba: Eu, o Pq. Wilbor,o Fabio mais uma gale9ra, estavamos falando justamente disso, esse cara vai torrar o milhe3o que ele ganhou de uma vez pra lane7ar a banda dele, vai durar uns 2 anos + ou e depois sumir. Aed lembramos das suas se1bias palavras em 2006, qdo gravamos com Vc; Isso e9 a ponta do ice berg . Sinceramente espero que esse ice berg derreta logo, ou seja! (essa crise passe logo)abre7, e parabe9ns pelo post.

  • 9/9/2013 09:54:24
    Nome:GQUJLWVWVDS
    Site / Blog://www.facebook.com/profile.php?id=100003443723810
    Comentário:That painting is a "//itapno.com">pecreft illustration to your point.I think your definitions of good art and great art are true and can be applied to literature and music as well as the visual arts. Does anyone read Jonathan Livingston Seagull anymore?

  • 10/9/2013 16:09:59
    Nome:EYJYKSOX6ZU
    Site / Blog://www.facebook.com/profile.php?id=100003443429284
    Comentário:Denis I really have no words that are"//bpfmscfowri.com"> auadqete to my emotions right now. Reading your entries and now hearing from others who have BDD or can relate in some manner have been incredibly moving. This has become so much more than a walk to raise awareness. I feel I will be present tomorrow, not at the end, but a leg of this journey thee is on. I am so incredibly proud. You have almost completed the second part of this journey the third may indeed be a book. Take time to just be .see thee upon your homecoming. Namaste, Laurie

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