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O PSIQUIATRA, PSICODRAMATISTA E PSICANALISTA WILSON CASTELLO DE ALMEIDA FALA SOBRE SEXUALIDADES TRANSVERSAS

29/9/2010

“O preparo para a atividade analítica de modo algum é fácil e simples.
Deve exigir, no seu ensino, o máximo possível de ciência da vida sexual.”
S. Freud, in A questão da análise leiga, 1926.

 
À semelhança das críticas dirigidas à obra de C. Jung, também J. L. Moreno é tido como autor de uma teoria assexuada. Nada mais falso. As escolhas sociométricas estão plenas de sexualidade, especificamente de eroticidade, ainda quando o critério do teste não seja o estudo dessa proposição em si.

 
José Fonseca, em seu livro “Psicoterapia da Relação”, desenvolve com clareza dois excelentes capítulos: A sexualidade como instrumento relacional e A sociometria sexual, seguindo as proposições de Moreno quanto às possibilidades do relacionamento interpessoal: atração, rejeição e neutralidade. E faz proverbial confirmação: “A atração sexual é um componente intrínseco do ser humano. Basta existir pessoas reunidas para ela surgir: na sala de aula, no metrô, na igreja ou no grupo terapêutico”
 
Ronaldo Pamplona da Costa, a partir de suas experiências de psiquiatria e psicodrama, no livro “Os onze sexos”, traz ao conhecimento do leitor a existência de inúmeras versões da sexualidade humana. São quadros descritivos com referências da Biologia, da Psicanálise e da Antropologia Cultural, coroados com o registro sobre direitos políticos desses agrupamentos, na perspectiva do psicodramatista.

 
Pierre Weil, precursor do psicodrama no Brasil, chama a atenção, no livro “A Mística do Sexo”, para o fato de que a natureza erótica humana, sua estrutura psico-fisiológica e a energia libidinal, são universais, presentes em homens e mulheres de todos os continentes, de todas as raças e etnias, valendo para qualquer condição econômico-social. E vai além, fazendo provocações: a sexualidade não é diferente entre católicos, protestantes, judeus, maometanos, budistas e outras crenças.
 
Thomas Moore, teólogo e psicoterapeuta junguiano, em seu livro “A Alma do Sexo”, registra: O sexo esta bem entranhado em todos os aspectos da vida. Por isso, as histórias aparentemente sem conteúdo sexual podem evidenciar a sexualidade de quem as conta, e aquelas com conteúdo claramente sexual podem referir-se a temas muito distantes da sua sexualidade.”

Para as filosofias da existência, o ser está condenado a seu destino erógeno, cabendo assumi-lo como ato livre, identicamente à espontaneidade em J. L. Moreno, por sua vez assemelhada à liberdade bergsoniana, a expressão mais original de cada um.

 
Segundo Jean Wahl, filósofo existencial francês, o que a ética da existência conclama é que nos “decidamos a decidir” diante da situação posta, que é o aceitar-se tal como se é. Assim, no campo restrito da sexualidade, não há “opções”, tão apregoadas por um certo idiomatismo equivocado, pois o apelo sexual instala-se sem pedir licença numa estrutura complexa da personalidade.
 
Somente ao celibatário seria dada a possibilidade de resguardar a sua natureza, como também aos indivíduos atualmente identificados como no sex, uma abstinência decidida sem inspiração confessional.
Na seara religiosa, o procedimento da sublimação, pregado e aceito, dificilmente é atendido pelos crentes, senão à custa de muitos sofrimentos e da superação sexual pela fé. Os estudiosos explicam a rigidez dos ditames religiosos como uma busca de estabilidade gregária e coesão moral das comunidades, pois, durante os séculos, o ato libidinoso sempre foi apontado como fator de corrupção pessoal e disrupção coletiva.

A respeito desse intrigante tema, é impressionante a coincidência das postulações do Código Hamurabi, das pregações dos Essênios, dos preceitos do Bhagavad-Gitã (poema tântrico), das cartas de São Paulo (o apóstolo dos gentios), do pensamento de Teilhard de Chardin (um padre jesuíta) e das propostas científicas de Freud (um ateu convicto). Todas essas ideias dirigem-se no sentido de se permitir a “economia energética”, possibilitando finalidades societárias superiores, relações de pura ternura entre as pessoas e, por isso mesmo, o surgimento da humanização.

 
O exato conhecimento da obra de Freud surpreende o leigo quando se lê: “É a sublimação e não o arrebatamento ou dissipação sexuais que garantem os casamentos e, consequentemente, a sociedade que se constrói sobre a estrutura familiar... “No desenvolvimento da humanidade como um todo, do mesmo modo que nos indivíduos, só o amor atua como fator da civilização, no sentido de ocasionar a modificação do egoísmo em altruísmo.”
 
A sublimação deveria ser alcançada, ainda, pela fruição dos prazeres estéticos – atividades artísticas, criações intelectuais – podendo-se agregar também o interesse pelos esportes, participação em movimentos político-humanitários e o contato amorável com a natureza.
 
Gregos e romanos encararam a sexualidade de uma forma diferente, verdadeiramente libertária. Para eles, o desejo sexual era um vetor dirigido à beleza física, sem distinção de gênero. Mas nem sempre a beleza física constitui-se em único crédito como força de atração entre as pessoas. Lê-se no Banquete de Platão que o nobre, belo e jovem Alcebíades declarara seu amor sensual e apaixonado por Sócrates, um plebeu de mais idade, sem qualidades apolíneas, de fisionomia tosca e feia, porém homem justo e virtuoso, de temperança e sabedoria, marco da evolução e de mudanças do pensamento humano. Essa passagem histórica leva-nos ao assunto candente do “amor de transferência”, a que Freud chamou de “a forma confessada do amor”. Nessa linha transferencial incluem-se os romances entre pessoas de idades díspares, sendo que a aproximação de homens mais velhos e mulheres jovens sempre foi socialmente aceita, embora com uma ponta de inveja, e, nos tempos modernos, as instituições vão se acostumando com a ligação inversa: mulheres mais velhas com jovens rapazes, sem que se configure um escândalo mórbido. Ó tempora, Ó mores!
 
Da comentada opressão da era vitoriana, o mais importante é discernir a hipocrisia e o cinismo vigentes, pois, naquele tempo, todos podiam tudo, desde que tudo fosse feito com discrição e recato. Ainda hoje, a mentalidade fascista (de direita e de esquerda) não dá tréguas à tolerância explícita, exigindo de todos uma vida sexual comedida, contida pelo labor das atividades diárias, a que Stefan Zweig identificou como “a demoníaca capacidade do homem para o trabalho cotidiano.”

 
No Dicionário dos Inquisidores, citado por J. P. Winter em seu livro “Os Errantes da Carne”, há a volúpia de disciplinar o sexo: “Não se deve de modo algum saber mais do que o necessário, não se deve saber demais, não se deve saber aquilo que só a Deus cabe saber: o segredo do desejo.”
 
Colette Soler (1997) denunciou a existência do “sexo maldito”, por ocorrer sob a égide do “amor sem modelo, repetitivo e compulsivo”, para afirmar com nostálgico desencanto que o amor grego (philis), o amor místico (divino), o amor louco (surrealista), o amor cortês (medieval), o amor clássico (emotivo) e o amor homossexual (à moda antiga), não mais estariam dando conta da misteriosa erotização inconsciente reverberada pêlos “gozos aprisionados ou perdidos” desses novos tempos.

 
Apesar de todos os avanços das ciências, as várias versões da expressão sexual continuariam ocorrendo dentro de um processo ininteligível, imprevisível e irreversível, criando-se a aura permanente de enigma a ser resolvido, colorindo a vida de tons passionais a que se chama desejo. Pensar o desejo inconsciente se faz, pois, por um viés distinto ao da medicina, da religião, da moral, da psicologia, da mitologia, da visão dos ativistas da política sexual e, por vezes, ao dos próprios sexólogos.
 
O Estado de Direito é condescendente e, do ponto de vista legal, o que ocorre entre pessoas aquiescentes, na intimidade do que não é público, é respeitado pelo mundo civil e profano. Porém, três temas permanecem como tabus invioláveis, por constituir o sumo do processo civilizatório: o do incesto, o da pedofília e o do estupro.
Antes de Freud a compreensão da sexualidade foi uma sucessão de fantasias e erros de avaliação, permitindo-se a “teoria da degenerescência”, a ideologização do instinto sexual e toda a gama de preconceitos instalados no cerne do pensamento burguês do século XIX.
 
De início, na área científica, mesmo Freud não conseguiu livrar-se das definições psiquiátricas de seu tempo e deixou-se contaminar pelo imaginário popular, pela moral do senso comum e, provavelmente, pelos sentimentos religiosos sutilmente impregnados em sua formação.

 
Posteriormente, a partir de 1905 com os Três Ensaios sobre a Teoria Sexual, seguindo-se inúmeros textos subsequentes, até 1938, ele foi o responsável pelas mudanças no “como pensar a sexualidade”, pela ousadia em abrir o tema a uma discussão crível, pertinente e honesta, na medida em que as ideias de sua lavra invadiram de forma compacta a cultura, abalaram as certezas escolásticas, sacrificaram a inocência e, outrossim, estimularam a ternura (Liebe) e a expansão da civilidade.
 
Eis algumas de suas formulações que deram novos rumos a essa reflexão: confirmação da sexualidade infantil e da existência e evolução das “zonas erógenas” na criança, capazes de serem excitáveis também na vida adulta; desenvolvimento dos conceitos de libido, pulsão, desejo, com a fundação da clinica do desejo inconsciente, capaz de superar as normas biológicas e sociais do sexo; reconhecimento de que os hábitos culturais são superiores às determinações da biologia; valorização das fantasias sexuais em múltiplas facetas; entendimento das perversões como fenômenos próprios da vida sexual, sem relação obrigatória com a patologia; a presença do pênis, dos pés e de outras partes do corpo como fetiches; observação de que a pulsão sexual não seria estabelecida sobre a díade macho-fêmea, mas sobre as polarizações atividade-passividade, sujeito-objeto, onde o inconsciente desconheceria a divisão anatômica entre os sexos femininos e masculinos.

 
Mais tarde (1960), Lacan, com a autoridade de quem melhor lera os escritos freudianos, equacionou a ideia de que a sexualidade não depende da anatomia dos gêneros (meros semblantes do objeto “a”) e nem do gozo sexual, porém tão somente do “gozo de ser”.
 
A perversão em Freud não é aquela registrada nos dicionários: índole má, depravação, traição, deslealdade, ruindade, corrupção, malvadeza, sordidez, disrupção, crueldade. A perversão seria o uso do sexo fora das metas da procriação, desviado, pois, desse objetivo e do objeto correlato. Numa conceituação rigorosa até o beijo seria uma perversão, por unir duas zonas erógenas orais e não duas zonas genitais procriativas.
 
Muito se pergunta porque Freud não deu outro nome ao que, no seu tempo, se chamava perversão, condicionando um outro vocábulo ao novo modo de desenvolver essa tese. Trata-se de uma interrogação inútil, pois ele já colocara idêntica dúvida na palestra “O desenvolvimento da libido e as organizações sexuais” (Conferência XXI). No texto, questionou o porquê do termo “perversão sexual” não ter sido superado, até então, diante do que ele estudara e definira. E respondeu: “Realmente não sei dizer. É como se as pessoas sentissem as perversões como sedutoras e, no fundo, tivessem de sufocar uma secreta inveja daqueles que as experimentam.”
 
A tentativa de emplacar a locução parafilia não teve a competente repercussão e as sociedades científicas mantêm a palavra perversão com seus enigmas e mistérios, estimulando, no imaginário de cada um, a sinfonia inacabada do desejo (desejo eternamente insatisfeito), orquestrada pela polimorfia do Kama Sutra secreto. Alguns significados da perversão, em suas figuras retóricas e paradoxais, dados pela literatura universal, não me cabe discutir por ora, porém, trazem a marca do jogo sado-masoquista em variadas intensidades, até nas interfaces com a criminalidade, conforme o paroxismo funesto do filme “O Império dos Sentidos”.

 
Com exceção das cirurgias indicadas para hermafroditas biológicos, da plástica da genitália preconizada para os transexuais verdadeiros, e das psicoterapias propostas para a superação dos casos de “falso self sexual”, a sexualidade identificada na estrutura da personalidade não se beneficiaria com intervenções clínicas, farmacológicas, psicanalíticas e psicodramaticas e nem com terapias de inspiração pavloviana. Todo esforço de tratamento resume-se em transformar o que é egodistônico em egossintônico tendo como objetivo a cura da angústia e dos conflitos subjacentes.
 
Os tabus do incesto, da pedofilia e do estupro, quando rompidos, configuram-se como um problema social grave, a exigir a ação multidisciplinar do que a sociedade pode oferecer.
 
A bissexualidade nunca existiria como prática serena entre humanos, mas sim como divisão da mente, passível de ocorrer em certo período da vida, constituindo-se sempre de conflitos traumáticos e fonte maior de manifestações histéricas.
O comportamento sexualista compulsivo dos portadores de “transtornos da personalidade” geralmente é tão desarmônico quanto às desproporções existentes nos planos intrapsíquico e inter-relacional desses padrões erráticos, constituindo-se num desafio à medicina e à sociedade, “sofrendo e fazendo sofrer”.
 
Schopenhauer, para dar ênfase à vontade de viver, timbrou: “Façamos aquilo que reclama o sexo que nos habita.” De modo análogo, a clinica lacaniana estabelecera, na ética da psicanálise, o agir conforme o desejo que mora em cada indivíduo: “Não abra mão de ser sujeito, de manter a sua diferença”. Contudo, de outro lado, Lacan adverte: “Conhecer a verdade de seu desejo éuma experiência trágica, pessoal e própria do herói.“ Para os homens comuns o real (o sexo inefável) seria apenas contatado “pelas bordas”, e até as exigências inconscientes seriam da responsabilidade individual e pública de cada um.
 
Ao lado de ideias revolucionárias, Freud, nos hábitos pessoais, foi homem puritano. Em 1910 realizou uma conferência sobre disciplina sexual, aconselhando os jovens à abstinência pré-matrimonial, donde se pressupõe ter-lhe sido uma regra de vida. Seu biógrafo Peter Gay apresenta-o como portador de um ideal casto pelo qual recomendava aos homens “um intercurso heterossexual adulto com parceira ternamente amada.”
 
Outrossim, teve a coragem intelectual de, em nome da verdade científica, constatar a sua homossexualidade *, verdadeiro idílio, em relação ao amigo Fliess, sublimada na produtiva interlocução epistolar responsável pelas suas melhores criações profissionais. Aos 45 anos encerrou a vida sexual de forma irrestrita e Emest Jones justificou esse “precoce declínio sexual como resultado de um horror neurótico da velhice e da morte.”

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* Nos dias atuais o termo correto para a relação referida seria o de homoafetividade.

 
Para os discípulos ele propunha que, ao final de cada análise, o paciente fosse aconselhado a se tomar livre, clarividente e sensato em suas decisões amorosas. E insistia na convicção de que a identificação com o pai seria tão primordial quanto ao amor da criança dedicado à mãe.
 
Esses fragmentos ideatívos pretendem aquecer a temática e, por uma questão de comezinha justiça, incitou-nos a registrar o marco histórico da saga da humanidade: a contribuição de Sigmund Freud, para quem a questão sexual não é da ciência ou da moral, mas sim da ética e da política.
 
Por fim, voltemos à atualidade, onde os costumes sexuais têm sido explorados exaustivamente pela mídia, ora com expressões estéticas elevadas, ora com humor brejeiro, ora com apresentações esclarecedoras e educativas, ora com exibições apelativas e debochadas. Uma coisa parece certa: viver as ondas da moda sexista não é certeza da ausência de choques particulares e sociais na área emocional.
 
Mesmo com as conquistas transgressoras vindas dos anos 60 e 70, uma situação permanece: as doenças psíquicas continuam numa rota epidemiológica crescente. O que são as bulimias, as anorexias, a obsessão consumista, a idolatria do corpo, a compulsão à maledicência, as agressividades desrazoadas e sem limites? Nada mais, nada menos do que manifestações sintomáticas da velha, conhecida e indomada histeria - a neurose básica - cujo verdadeiro nome é sexo, não o da anatomia e sim o da realidade psíquica ou do corpo erógeno.
 
Portanto, as vitórias da lascívia não são garantia de menores males neuróticos para a humanidade e não aplacam as angústias basilares do homem. O ideal reichiano de erradicação da infelicidade pelo exercício amplo do sexo se perde nos arquivos do tempo. Camille Paglia em seu desabrido livro Personas Sexuais (1990) não teme a polêmica ao afirmar: “Liberdade sexual, liberação sexual.Uma ilusão moderna. Sempre que se busca ou se alcança a liberdade sexual, o romantismo se torna decadência. Não há sociedade sem interditos sexuais.”
 
As psicoterapias, entre elas a psicoterapia psicodramática, estão convocadas a entender e a superar a mais conflitiva questão do sujeito. A sexualidade está no centro da experiência humana, para o bem e para o mal e assim o é em função de sua própria natureza humana.

Despeço-me, com o contraponto do poeta Maiakovski: “Difícil não é o sexo. Difícil é a vida e o seu oficio.”

 

Texto apresentado no XVII Congresso Brasileiro de Psicodrama, em Águas de Lindoia (3 a 7 de setembro de 2010), adaptado do Editorial que escrevi para a Revista Brasileira de Psicodrama, Vol. 12, Nº 22, Ano 2004, com o título “Ressonâncias sociais da sexualidade humana: o lugar e o papel do psicodramatista”.
 A apresentação foi seguida de supervisão de casos, em regime de “role-playing”.
 
 
Wilson Castello de Almeida
Psicoterapeuta com formação em Psiquiatria, Psicodrama e Psicanálise

 

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