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MARXISMO E PSICANÁLISE

6/10/2009

Ao reler o Mal-estar na Cultura,me flagrei em vários momentos tentando fazer alguma delimitação entre o campo da cultura e o campo sócio-histórico. Não me lembrava que Freud discutia mais de uma vez a questão da propriedade privada.
 
Nesta obra, ele nos apresenta a sua tese do conflito inevitável e irreconciliável entre vida pulsional e vida social no processo civilizatório. Entretanto, nos permite localizar em algumas passagens do texto uma distinção entre determinação cultural e determinação social, por exemplo: “Podemos esperar efetuar, gradativamente, em nossa civilização alterações tais, que satisfaçam melhor nossas necessidades e escapem à nossas críticas. Mas talvez possamos também nos familiarizar com a idéia de existirem dificuldades, ligadas à natureza da civilização, que não se submeterão a qualquer tentativa de reforma”. Há, portanto, um reconhecimento por parte de Freud, a despeito das dificuldades naturais e imutáveis impostas pela cultura, de que alterações sociais poderiam trazer uma melhor satisfação à humanidade.
 
As linhas freudianas do Mal-estar parecem ora generalizar o que é da cultura para qualquer forma social de produzir a vida, ora reconhecê-las como distintas e delimitar as suas fronteiras.

Em seu artigo Fé e suspeita em Freud, Rouanet aponta duas correntes interpretativas d’O Mal-estar na cultura, que considerou como “duas deformações de Freud”. A corrente marxista (Reich e Marcuse) seria uma “deformação angelista” por ter concebido o homem como puro efeito das relações sociais e, portanto, bastaria superar tais relações pelo controle de aniquilamento de Tânatos para que o homem se manifestasse em sua inocência natural. Esta concepção teria se restringido a uma concepção humana na sua determinação puramente social.
 
A “corrente naturalista” teria exagerado no pessimismo por ter afirmado a impossibilidade de qualquer transformação social que pudesse modificar o psiquismo humano, constituído de ilusões necessárias através de mecanismos inconscientes e da livre atuação da pulsão de morte. Trata-se evidentemente de uma concepção do psiquismo humano como completamente autônomo do contexto político, histórico e social, um psiquismo que funcionaria automaticamente por si próprio, a-histórico e, nesse sentido, passivo e completamente imune a qualquer mudança social. 
 
Para Rouanet, Freud se situaria “aquém do angelismo”, ao ter concebido um aparelho humano pulsional que jamais terá a sua inclinação à agressividade eliminada por qualquer revolução social. Haveria na natureza humana uma predisposição à violência, uma violência natural. Estaria situado também “além do naturalismo”, ao ter reconhecido a força da determinação social e, portanto, a eliminação que uma parcela da repressão pulsional sofreria através da correção de “assimetrias de riqueza e de poder”, reduzindo assim a infelicidade humana.
 
Penso que esta crítica de Rouanet à leitura angelista marxista não cabe no caso da interpretação de Marcuse, como Rouanet cita em seu texto. Marcuse não deixa de levar em conta o ‘homem freudiano’, a força da vida pulsional, apenas delimita historicamente alguns pontos do pensamento freudiano. Aponta também em Eros e Civilização a substância sociológica, a teoria social presente no próprio Freud e, em seu ‘Prefácio da Primeira Edição’ desta obra, afirma que a questão não era psicanalisar os fenômenos sociais, mas desenvolver a substância política e sociológica da Psicanálise. Isso não me parece angelista. Mas vamos a outras passagens do próprio Freud que, em inúmeros momentos do Mal-estar, deixam aberturas a esta distinção dos campos da cultura e do social.
 
Ao discorrer sobre a agressividade constitutiva do ser humano, Freud critica os comunistas por adotarem uma “concepção de que o homem é inteiramente bom e bem disposto para com seu próximo, e a instituição da propriedade privada corrompeu-lhe a natureza”. Freud localiza a agressividade humana muito anteriormente ao nascimento da propriedade privada, apesar de admitir que esta acrescentasse uma dose de agressividade ao dizer que “Abolindo a propriedade privada, privamos o amor humano da agressão de um de seus instrumentos, decerto forte, embora, decerto também, não o mais forte”.
 
Freud parece reconhecer o acréscimo de violência que a propriedade privada trouxe para o convívio humano, mas relativiza tal acréscimo, localizando a agressividade como “a base de toda relação de afeto e amor entre pessoas”. Neste sentido, em qualquer sociedade em que houver relações de afeto e amor, ou seja, em qualquer sociedade humana, haverá uma propensão à agressividade.
 
Podemos perguntar se a qualidade do amor e do afeto na família e na sociedade burguesa não configuraria certo tipo específico de violência que poderia ser diferente em outra sociedade e, portanto, em outra família. Pois, apesar de afirmar “a base de toda [grifo meu] relação de afeto e amor”, Freud parece abrir para a possibilidade de “novos caminhos” que a civilização poderia rumar através da abolição da família (família burguesa?), mas sem abrir mão de um remanescente natural de violência mútua: “Se eliminarmos os direitos pessoais sobre a riqueza material, ainda permanecem, no campo dos relacionamentos sexuais, prerrogativas fadadas a se tornarem a fonte da mais intensa antipatia e da mais violenta hostilidade entre homens que, sob outros aspectos, se encontram em pé de igualdade. Se também removermos esse fator, permitindo a liberdade completa da vida sexual, e assim abolirmos a família [grifo meu], célula germinal da civilização, não podemos, é verdade, prever com facilidade quais os novos caminhos que o desenvolvimento da civilização vai tomar; uma coisa, porém, podemos esperar; é que, nesse caso, essa característica indestrutível da natureza humana seguirá a civilização”.
 
Mais adiante, Freud, ao realizar uma crítica à ética religiosa, afirma: “Acho também bastante certo que, nesse sentido, uma mudança real nas relações dos seres humanos com a propriedade seria de muito mais ajuda do que quaisquer ordens éticas; mas o reconhecimento deste fato entre os socialistas foi obscurecido, e tornado inútil para fins práticos, por uma nova e idealista concepção equivocada da natureza humana”.
 
Freud reconhece que uma ética terrena seria uma ética de mudança nas relações materiais da propriedade privada, mas não deixa de criticar a crença por parte dos “comunistas” em uma natureza humana boa que só agiria violentamente a partir do surgimento da propriedade.
 

Sem ingenuidade ou resignação, se o mal-estar é constitutivo do humano, o mais mal-estar (parafraseando Marcuse), cada vez mais mais, é constitutivo do capital, historicamente delimitável, humanamente superável. 

 

 

Referenciais Bibliográficos

Freud, S. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1974.

Marcuse, H. Eros e civilização. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1968.

Rouanet, S. P. Fé e Suspeita em Freud. Caderno Mais. Folha de São Paulo, 2004. 

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