EM FOCO

Imprimir

VÍNCULOS: O OLHAR DA PSICOLOGIA RELACIONAL

25/5/2009

Psicorama: Diversos aspectos da Psicologia Relacional nos levaram a pensar no enigma de Kaspar Hauser. A busca de relações é impositiva para o ser humano?

Fonseca
: Sim, a constituição do sujeito se faz por uma interação genética e relacional na matriz de identidade. A propósito, lembro que no epitáfio de Kasper Hauser consta algo como “aqui jaz um desconhecido morto por um desconhecido”. Não se descobriu quem matou e quem foi Kaspar Hauser. Ele não conseguiu realizar adequadamente um reconhecimento do Eu, do Tu e do Ele. Isso representa o exagero do típico porque todos nós também morreremos sem nos conhecer totalmente.
O aspecto relacional se impõe porque o Universo é relacional. Do ponto de vista cosmológico, reconhecendo aqui as influências de Jacob Levy Moreno e Martin Buber, tudo é relacional. A Física estuda as relações de atração e expansão e o equilíbrio entre elas; a Química estuda a combinação (relação) dos elementos; a Biologia está assentada na Física e na Química e estuda as trocas (relações) intra e intercelulares. A Psicologia estuda as relações da criança com as funções maternas e paternas. A Sociologia estuda as relações do homem em suas comunidades. A Teologia estuda a relação do Criador com as criaturas e assim por diante. Por dedução: Psicologia Relacional - tudo são relações, somos frutos de relações.
 
Psicorama: Quais outras fontes contribuíram para a construção de seu pensamento sobre psicologia relacional e/ ou psicoterapia da  relação?
 
Fonseca: Além de Moreno e Buber, reconheço muitas influências entre as quais as de Bowlby, Kohut e Winnicott. E também as de Lacan, que estamos estudando há cinco anos no Grupo de Estudos de Psicodinâmica (GEP) – Daimon. Ele foge da tradicional visão da “psicologia papai-mamãe”, abrindo para o aspecto relacional da função materna e da função paterna. Acrescento a função fraterna que institui o aspecto de aliança e rivalidade entre os iguais. Essas funções casam com a visão moreniana da matriz de identidade, caracterizada como a “placenta social da criança”.
 
Psicorama: É desta placenta que decorre sua concepção de desenvolvimento humano?
 
Fonseca: Sim, o ser humano faz um percurso existencial que começa na barriga da mãe. Não há ainda uma identidade psicológica, não há distinção entre o eu e o outro. O embrião (e depois o feto) experimenta uma inserção biológica e ao mesmo tempo cósmica (fase umbélico-placentária). Com alguns meses a criança vivencia o reconhecimento do Eu (fase do espelho de Moreno e Lacan). E consequentemente ela faz o reconhecimento do outro, do Tu. Em outra instância ela chega ao reconhecimento do Ele (triangulação) e ao reconhecimento do Nós por intermédio da fratria e da circularização social. Restaria ainda uma fase que representaria o retorno cósmico por intermédio da morte física e psicológica.
 
Psicorama: A morte incluída na nossa constituição... Aceitar a própria morte?
 
Fonseca: É, aceitar que você perde essa querida identidade. (risos)
 
Psicorama: Você fala de identidade, fases constitutivas de identidade, matriz de identidade. Em Freud, entretanto, nós não encontramos este conceito. Parece-nos que você usa o conceito como uma busca, uma utopia, uma meta inatingível.
 
Fonseca: Bem, sobre fases constitutivas, Freud fala em fase oral, anal e fálica (genital) e Lacan fala em fase do espelho e nos três tempos do Édipo. Porém sobre a constante busca do ser humano creio que não só a psicanálise como também a cabala e o hassidismo, que inspiraram Moreno e Buber, falam que somos seres do desejo. Estamos sempre desejando algo por uma razão simples: temos um vazio (de amor, de sexo, de conhecimento, de alimento etc) a ser preenchido. Coincidentemente o corpo humano é constituído de muitos ocos-vazios. Somos seres que nunca nos sentimos completos e sempre buscamos uma suposta plenitude. O ser humano busca a completude divina, ele não se conforma de ter somente um pequeno Deus dentro de si. Algum pessimista ou mal-humorado poderá dizer: “Ó, o ser humano está constituído na falta, então não adianta, você vai ser sempre infeliz porque sempre te faltará algo”. Agora, se você for otimista você vai dizer que o ser humano é constituído pela falta, pela busca e pelos encontros da vida. E esse jogo, porque existe um aspecto lúdico nisso, de sentir a falta e de buscar e usufruir dos pequenos encontros talvez seja a essência do viver.
  
Psicorama: Você está se aproximando da idéia de desejo?
 
Fonseca: Nós somos criaturas do desejo. Um desejo que em vida nunca se completa totalmente. Os filósofos existencialistas falam de Encontro e as religiões falam de êxtase, transcendência e iluminação, no sentido de que é possível vivenciar momentos de completude e/ou iluminação de nosso vazio ou escuridão. Estes fenômenos poderiam ser compreendidos como curtos-circuitos de plenitude cósmica com o posterior retorno ao percurso  do cotidiano. Na clínica psiquiátrica observamos que algumas pessoas permanecem seqüestradas em um êxtase místico transformando-o em uma vivência delirante. Os limites entre a saúde e a patologia, às vezes, é tênue.
 
Psicorama: Em seu texto “Moreno e Lacan” (em fase de conclusão) você fala em normose,  neurose, distúrbios de identidade (perversões) e psicoses... E você fala também que a perversão e a psicose estão em todos nós.  Poderia falar mais desse campo da psicopatologia?
 
Fonseca: Nesse texto inspiro-me em Lacan, em Moreno, e na psicopatologia psiquiátrica, para propor que as vivências positivas e negativas internalizadas durante o percurso da matriz de identidade ficam registradas em termos de núcleos transferenciais ou psicóticos e de núcleos atuadores ou perversos (segundo a antiga nomenclatura psicanalítica). Esses núcleos permanecem em estado de latência, podendo ser disparados a qualquer momento da vida adulta. Bion, por exemplo, fala da “parte psicótica da personalidade”. Um exemplo de mobilização de núcleos atuadores ou psicóticos podemos observar em alguns crimes passionais. Uma pessoa que nunca matara e que jamais voltará a matar age sob a ação disparada por um desses núcleos. Uma imagem gráfica talvez seja mais didática. Consideremos que há uma linha horizontal de desenvolvimento biológico e psicológico. Consideremos ainda que também existem linhas verticais que representam situações existenciais que independem do tempo cronológico. Imaginem uma criança que sofre um abuso sexual ou que perde abruptamente um progenitor. Esses cortes e os sentimentos suscitados são registrados consciente e/ou inconscientemente em uma “caixa preta” constituindo núcleos que podem funcionar em latência ou em atividade.
 
Psicorama: Fonseca, você utiliza muitos elementos comparativos entre reconhecimento do Ele/estruturação do Eu e os Tempos do Édipo em Lacan, mais especificamente na terceira fase do Édipo em Lacan. O conceito de Lei e sua importância na configuração do Édipo já está em Freud. Ora, vivemos uma época de grandes transformações nas configurações familiares onde a figura do pai está mais apagada. Há falta do “nome do pai” na sociedade contemporânea?
 
Fonseca: A cultura está sempre mudando. A patoplastia das doenças mentais acompanha as mudanças culturais. Por exemplo, hoje, as manifestações conversivas (músculo-esqueléticas) da histeria são raras no Sul do Brasil, porém continuam manifestando-se no Norte-Nordeste do país. No Sul as manifestações são menos expressivas e mais interiorizadas (dor de estômago, cólon irritável etc). A função paterna, que propicia o corte com a função materna e promove o surgimento da ordem e da lei é um resultado simbólico da cultura, e não do pai real especificamente. Uma criança pode ter sido criada sem o pai biológico, e apresentar uma função paterna bem internalizada. Cabe então a pergunta: o pai real não é importante? A resposta surge como um jogo de palavras: “o pai real não tem importância, mas tem importância... A função paterna é função da cultura, porém a cultura é permeada pelos sujeitos com quem a criança se relaciona.
 
Psicorama: A questão é como a lei é subjetivada?
 
Fonseca: A internalização da lei, da ordem, do sim-não, do pode-não-pode, da fantasia-realidade, é realizada de maneiras variáveis gerando uma multiplicidade de sentimentos que esculpem diferentes estruturas de personalidades. Reconheço os três tipos de estruturas clínicas propostas por Lacan, adaptando-as, porém, a considerações de meus textos anteriores. Considero os normóticos e os neuróticos como portadores do mesmo tipo de estrutura, distinguindo-se pelo fato de os últimos apresentarem sintomas e os primeiros não. Considero sintoma um sofrimento pessoal que leva o sujeito a buscar ajuda profissional. O normótico apresenta uma fluência espontâneo-criativa em seus traços principais, não se constituindo, necessariamente, em um quadro clínico médico-psicológico. O que a psicanálise chama de perversão denomino transtornos ou distúrbios de identidade. Finalmente, existe o grupo de psicóticos que se distingue da denominação da psiquiatria clássica porque é constituído por sujeitos que apresentam um funcionamento psicótico, independentemente do fato de apresentarem ou não um surto psicótico.
 
Psicorama: Vivemos na chamada sociedade da imagem: uma sociedade de cultura narcísica onde o importante não é o ser, mas o parecer, uma sociedade que valoriza o consumo e aniquila o cidadão. Nesta sociedade, valores tradicionais foram rompidos e cultua-se o individualismo e o indivíduo vencedor. Hélio Pelegrino disse que o pacto edípico necessita ser reafirmado pelo pacto social, mas o pacto social, nesta sociedade, está esfarrapado. Esta sociedade produziu ou produzirá novas conformações da clínica?
 
Fonseca: Faço esta discussão em um texto onde discuto a terapia individual e a terapia de grupo. Nos anos 60, 70 e 80 a psicoterapia de grupo tinha muita força no Brasil e no mundo. Hoje poucos terapeutas trabalham com grupos na clínica particular, apesar dos grupos continuarem a ser uma inteligente estratégia de trabalho institucional. Temos que levar em conta que a cultura mudou. Nos anos 60 e 70 predominava a contracultura e o movimento “hippie” que valorizava o desapego aos valores capitalistas. Valorizava a sexualidade livre, a vida comunitária e a “paz e amor”. Nesta cultura eminentemente grupal vicejaram as terapias de grupo. A International Association of Group Psychotherapy (IAGP) foi fundada em 1973. Nos anos 80-90 houve uma reviravolta individualista e direitista. A cultura “yuppie” foi colocada no lugar da “hippie”. Os valores passaram a ser pautados pelo “clean”. Os cabelos longos e desgrenhados dos hippies foram cortados e levaram gel. Filmes como “Nove e meia semanas de amor” retratam os valores dessa época. Os anos 90 foram marcados pela “geração leva vantagem” (“me decade”), pelo enriquecimento rápido na bolsa de valores, pela internet e pelo prozac nosso de cada dia. Muda a cultura, muda o homem, muda a psicologia e a psquiatria.
 
Psicorama: Você usa a metáfora do terapeuta-jardineiro. Você até trata as chamadas estruturas psicopatológicas como potencializadoras. Como é isso?
 
Fonseca: Comento com os supervisionandos sobre a função energizante da psicoterapia. Podem existir pacientes chatos, mas a responsabilidade de fazer acontecer sessões interessantes, mesmo com pacientes chatos, é do terapeuta. Por exemplo, uma pessoa com uma estrutura predominantemente obsessiva tem que ser trabalhada respeitando-se sua estrutura e compreendendo-se que cada traço tem um lado positivo e um negativo. O traço obsessivo apresenta  uma tendência para a valorização da lógica, do racional, da limpeza, da organização. E estas características não são boas? O lado negativo do traço está representado por uma racionalização exagerada, um endurecimento afetivo e uma tendência a robotização. Enfim, o exagero do traço torna-se um sintoma. A tarefa do terapeuta-jardineiro é ajudar aquela planta a assumir sua identidade e voltar a dar flores e frutos, ou seja, poder retomar sua fluência espontâneo-criativa. Não se deve desejar ser o que não se é. Deve-se desejar ser mais profundamente o que se é.
 

José de Souza Fonseca Filho
Médico, doutor em psiquiatria pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Coordenador do Daimon - Centro de Estudos do Relacionamento e didata pela Federação Brasileira de Psicodrama (FEBRAP). Foi editor do International Fórum of Group Psychotherapy. Autor dos livros: Psicodrama da loucura - correlações entre Buber e Moreno (Ágora, 7ª edição, 2008), Psicoterapia da relação - Elementos de psicodrama contemporâneo (Ágora, 2000) e Contemporary psychodrama - New approaches to theory and technique (Nova York/Londres, Brunner-Routledge, 2004).

COMENTÁRIOS:(0)

Envie seu comentário

voltar

Irmãs Ross...Uma relíquia
Fantásticas, famosas na época.

.

Psicotramas

16/08 - Lançamento do livro Crônica de uma Ilha Vaga
Núcleos de Formação Permanente no CEP

Psicorama © - Todos os Direitos Reservados
psicorama@psicorama.com.br

MFSete