EM FOCO

Imprimir

NISE DA SILVEIRA - IMPETUOSA CARALÂMPIA

31/3/2010

Leitora contumaz e apaixonada de Spinoza, filósofo de sua predileção, Nise da Silveira tomou-lhe de empréstimo a intuição de totalidade e a definição: "A loucura é a pior forma de escravidão". Para ela, a palavra "esquizofrenia" bem que poderia ser substituída pela expressão "os inumeráveis estados do ser", creditada ao dramaturgo Antonin Artaud. À luz de C. G. Jung, vislumbrou arquétipos capazes de emprestar sentido às formas expressivas oriundas de psiques cindidas e atormentadas. Demasiado humana, a psiquiatra alagoana que no dia 15 de fevereiro teria feito 100 anos jamais admitiu qualquer forma de segregação e violência no tratamento de pessoas com sofrimento psíquico. Para ela, que se aposentou em 1975, mas continuou atuante até o ano de sua morte, em 1999, aos 94 anos, afeto cura.
 
Miúda e fisicamente frágil, não hesitava em comprar brigas para defender os que não tinham voz. No time dos marginalizados, cabiam os bichos. "Ela cansou de pegar o telefone para dar bronca nos funcionários da carrocinha, que levavam presos os cachorros", rememora a amiga e antropóloga Luitgarde Cavalcanti. Em nome da dignidade de seus "clientes" - não os tratava como pacientes -, negou-se a sucumbir aos métodos ditos modernos da psiquiatria da década de 1940, maldizendo eletrochoques, lobotomia e comas insulínicos; peitou a classe médica que via a terapia ocupacional como prática menor, desdenhando das tentativas de entendimento da mente humana através de formas de expressão subjetivas; torceu o nariz para a bibliografia psiquiátrica que apontava o esquizofrênico como alguém destituído de liberdade.
 
Em entrevista ao amigo, poeta e crítico de arte Ferreira Gullar, em 1996, Nise da Silveira passou a limpo sua formação intelectual, esmiuçou o período em que esteve presa por motivos políticos ao lado de figuras como Graciliano Ramos e Olga Benário, riu-se do colega médico que desconfiou da autoria de obras com reconhecido valor artístico saídas do Centro de Terapia Ocupacional do Hospital Pedro II. Três anos depois da conversa publicada, Caralâmpia, alérgica a anestésicos, sucumbiu a uma operação no ombro. "Ela já vivia numa cadeira de rodas por conta do tombo que lhe deixou uma perna mais curta que a outra. Ainda passou 45 dias lúcida, embora entubada, respirando com a ajuda de aparelhos. Nesse período, escrevia bilhetes. Dizia que não ia sair de lá, que os médicos tinham conseguido enfim prendê-la. Ainda assim, surpreendentemente, ria seu riso de Gioconda e ouvia sua música dileta: "As Quatro Estações" de Vivaldi, recorda a amiga." (Ethel de Paula) 

 

 
Ferreira Gullar - Como se deu sua evolução intelectual até você se tornar socialista e terminar na prisão?
Nise da Silveira - O desejo de meus pais era que eu me tornasse pianista como minha mãe. Mas, para meu desespero eu era desafinadíssima. Muitas vezes estando eu com os longos dedos estendidos sobre o teclado, olhar fixo no texto musical sobre a estante do piano, ouvia a minha mãe de longe, noutro andar da casa, dizer: "Nise, atenção com o sol sustenido." Ou outras vezes, com o mi bemol. Meu ouvido não percebia as dissonâncias. Eu me desesperava. Meu pai, além de participar da luta política ao lado do irmão - sem grande entusiasmo - era também professor. Dava aulas de matemática em colégios particulares. Ele, às vezes, me levava para as aulas a fim de que eu me habituasse a conviver com rapazes. Também convidava rapazes, seus melhores alunos, para irem lá em casa estudar. Nessa época, comecei a fazer o curso preparatório para a Faculdade. Hoje esse tipo de curso não sei que nome tem, já mudou de nome muitas vezes.

Gullar - Por que escolheu estudar Medicina?
Nise - Na verdade eu não tinha nenhuma vocação para a Medicina. Quando vejo sangue, fico tonta. Não podia nunca ser médica. Na verdade, a escolha se deu por influência desse grupo de rapazes, que estudavam com meu pai, e que iam todos cursar Medicina, na Bahia. Assim fomos em bando para Salvador.

Gullar - Seu pai era rico?
Nise - Não. Ele era despreocupado. Nunca pensou em comprar uma casa para a família. E quando minha mãe falava nisso, ele dizia: "Não, quando a Nise se formar a gente vai morar em Paris." (Risos).
 
Gullar - Era um sonhador.
Nise - É, era um sonhador... Eu me formei e, um mês depois, meu pai morre. Em fevereiro de 1927, um dia antes de completar 47 anos.

Gullar - Acabaram-se as mordomias.
Nise - (Risos) Acabaram-se as mordomias. Minha mãe foi morar com o pai dela e a irmã mais moça. E eu então, que fui sempre de uma natureza impetuosa, disse: "Eu não fico aqui." E adoidamente vendeu-se tudo da casa. Imagine que tínhamos dois pianos de cauda. Vendeu-se tudo, jóias de minha mãe, tudo. Aí eu tomei um navio e me toquei para o Rio de Janeiro.
 
Gullar - Sozinha?
Nise - Sim, sozinha. Chego no Rio, vou para uma pensão no Catete. Bem, o dinheiro ia se esvaindo, eu tinha que trabalhar. É aí que começa a segunda etapa de minha vida.

Gullar - Onde foi trabalhar?
Nise - Procurava trabalho, mas não encontrava. O trabalho que se oferecia era em casas de saúde e eu não me interessei.
 
Gullar - E não podendo ver sangue...
Nise - Antes que o dinheiro acabasse, busquei no jornal um lugar mais barato para morar. Encontrei um em Santa Teresa, no Curvelo. Aí é que se formou "a trinca do Curvelo", de que fala Elvia Bezerra no livro que publicou recentemente.
 
Gullar - Qual era a trinca?
Nise - Manuel Bandeira, eu e o poeta Ribeiro Couto, que também era diplomata. Residia no andar abaixo ao do Bandeira a família de Zoila Teixeira, onde eu almoçava quase todos os dias. Pessoa boníssima. Quando fui presa, ela com grandes riscos, levava toda semana comida para mim. Mas foi de Otávio Brandão que me aproximei mais e de sua mulher Laura. Eles moravam, ali, com as três filhas, em paupérrimas condições. Eu discutia muito com Otávio. Ele estava no auge do entusiasmo pelo comunismo, havia entrado recentemente para o Partido Comunista, que tinha sido fundado por Astrogildo Pereira.

Gullar - É. O Partido Comunista foi fundado por essa época, em 1922.
Nise - Eu e ele discutíamos sobre o Cristo, Nietzsche, sobre Tolstoi... Em 1930, houve a revolução de Getúlio e os comunistas, inclusive Brandão, foram presos e depois tiveram que ir embora. Otávio foi para a Alemanha e depois para a União Soviética, junto com a Laura, sua mulher, que era poetisa, e as filhas. Ela um dia me disse uma coisa de que nunca me esqueci: "Você já reparou nas mãos do Minervino?" Eu respondi: "Não, por quê?" E ela: "As mãos dele são lindas"... Minervino era um comunista, marmorista de profissão. "Você precisa reparar nas mãos do Minervino, as mãos do marmorista". As mãos do Minervino eram cheias de marcas do trabalho... Aí eu aprendi a busca da beleza nas coisas aparentemente feias.
 
Gullar - Enquanto isso, aqui, o que acontecia com você? Conseguira emprego?
Nise - Não, mas passei a frequentar uma clínica de neurologia do prof. Antônio Austragésilo. Desse modo, eu estudei neurologia, fiz alguns trabalhos. Foi então que correu a notícia de que ia haver um concurso para médico psiquiatra. Eu lia sobre psiquiatria, pelo prazer de conhecer o assunto e até ganhei algum dinheiro fazendo teses para psiquiatras, a fim de conseguirem ingressar na carreira... Uma imoralidade horrível. (Risos)
 
Gullar - E o concurso, inscreveu-se nele?
Nise - Eu disse para mim: não posso me inscrever nesse concurso porque vai ser daqui a um mês e não terei tempo de me preparar. Mas o professor Austragésilo, que gostava muito de mim, foi lá e me inscreveu por decisão dele. "Você está inscrita e agora tem que fazer o concurso", me disse ele. O velho era assim. Eu fiz o concurso. Estudei como uma fera. Mas tem aí uma coisa muito importante: nesse período em que me preparei para o concurso, fui morar no hospício.
 
Gullar - O hospício da Praia Vermelha?
Nise - Sim.

Gullar - O antigo hospício onde ficou internado Lima Barreto?
Nise - É. Um dos fundadores desse hospital foi um homem a quem fazem uma grande injustiça chamado José Clemente Pereira, que foi ministro de Dom Pedro II. Era um homem sensível. Basta dizer que um dia mandou quatro instrumentos musicais para doentes do hospital de psiquiatria - uma rabeca, uma flauta, um clarinete e uma requinta - dizendo: "Para os doentes, a fim de que se distraiam ou, talvez, se curem." Esse período no hospício me ensinou muito. O subadministrador que tomava conta do prédio era uma pessoa de ótima qualidade. Ele pôs no meu quarto uma mesa, onde arrumei meus livros. Tinha ali de tudo, livros de medicina e de literatura. Tinha Proust... Lia muito nesse tempo Oscar Wilde, Anatole France... Eu também passei a conviver, então, com estudantes de esquerda, os amigos que escolhi. Porque havia dois grupos: um, que era liderado pelo Tristão de Athaíde...
 
Gullar - Grupo dos católicos.
Nise - Sim, dos católicos, e algumas pessoas muito boas, muito corretas como por exemplo Murilo Mendes. O outro grupo, de esquerda, era liderado pelo Castro Rebelo, professor da Faculdade de Direito, que ficava ali no Catete... Um dia fui jantar com um amigo no restaurante Reis, no centro da cidade, na Almirante Barroso... Quem jantou comigo foi o Hyder Correa Lima, um cearense, que entendeu de me levar a uma conferência do Castro Rebelo, naquela noite, sobre Direito Marítimo. O Castro Rebelo seria um grande ator, ele gesticulava, entonava a voz... Mostrou a influência do capitalismo sobre o Direito Marítimo de modo tão convicente que eu me bandeei para a esquerda em defesa do Direito Marítimo. (Risos)
 
Gullar - É nessa época que passa a ler Marx e vai a algumas reuniões do Partido Comunista?
Nise - É. Em 1933 eu fiz o concurso para médico psiquiatra e fui aprovada. Alguns dos rapazes que estagiavam no hospital do Austragésilo também passaram no concurso. Aí eu comecei a trabalhar no hospital da Praia Vermelha. Uma enfermeira, que fazia a limpeza de meu quarto, viu sobre minha mesa uns livros socialistas e me denunciou à administração. E assim aprendi outra lição, que desmentia o que afirmavam os livros de psiquiatria sobre os doentes mentais. Esses livros diziam que os esquizofrênicos eram indiferentes, sem afeto. Mas a doente que me levava o café toda manhã em meu quarto, quando soube de minha prisão, não ficou indiferente. Eu não entendia nada do que ela falava, mas ela estava entendendo o que se passava. Pegou de murros a enfermeira que me havia denunciado. Fui levada para a Casa de Detenção, na rua Frei Caneca. No dia seguinte, de manhã, me transferiram para o pavilhão dos primários, onde estava instalada a famosa "sala 4". Ali ficavam as mulheres prisioneiras.
 
Gullar - Graciliano Ramos se refere a isso nas Memórias do Cárcere. Estavam lá a Olga Benário, a Eneida, Carmem Ghioldi, Maria Werneck...
Nise - A Elisa Berger, na verdade Elisa Ewert...

Gullar - Ah, sim, mulher de Arthur Ewert ou Harry Berger, que foi torturado até enlouquecer.
Nise - Ela também foi muito torturada, sofreu muito. Foi muito queimada. A cama dela era junto da minha. Eu que sempre dormi bem, tinha bom sono, àquela hora acordava, não conseguia dormir.
 
Gullar - Qual hora?
Nise - Na hora da tortura. Eles tinham uma hora certa para torturar. Vinham e a levavam. Depois, ela me mostrava as queimaduras nos seios... Eu ficava nervosíssima, vendo aquilo. Assim nasceu uma relação de amizade entre nós duas. Tanto que ela, pensando que eu sentia frio de noite, por ser eu magrinha, me cobria com o cobertor. Aquele cobertor de soldado, horrível, que me espetava a pele. Ela puxava o cobertor e me cobria até o pescoço, dizia: "Você pode ficar doente." Lembra-se da Eneida?

Gullar - Claro que me lembro, fui amigo dela.
Nise - Pois bem, Eneida tinha ficado doente e eu fui com ela para o Hospital Gafrée e Guinle, na Tijuca. Eles nunca deixavam ir um preso só quando ficava alguém doente. Aí eu fui escolhida para ir com Eneida. Minha vida melhorou muito no hospital. Era outro ambiente, outro clima, a comida melhor. Quando a Eneida se curou, eles mandaram buscá-la de volta para a "sala 4" e eu voltei para a enfermaria da Casa de Correção.
 
Gullar - E como foi seu encontro com Graciliano Ramos? Ele conta nas Memórias do Cárcere que ficou meio encabulado, se sentindo rude, sem jeito. Foi você que pediu pra ele vir?
Nise - Não, foi Isnard Teixeira, que era médico e amigo meu, que quis me apresentar a ele. Depois eu e Graciliano nos tornamos amigos. Depois de soltos, na livraria José Olympio, havia uma saleta onde ele se reunia com amigos para conversar quase toda tarde. Eu às vezes ia lá e, quando chegava, fosse quem fosse que estivesse sentado ao lado dele, se levantava para eu sentar.

Gullar - E como finalmente saiu da prisão?
Nise - É que Getúlio Vargas convidou para ocupar o ministério da Justiça o Macedo Soares. Ele teria dito a Getúlio que não assumiria o Ministério havendo presos políticos sem condenação ou processo. Então mandou soltar os presos políticos que estavam nessa condição. Esse gesto ficou conhecido como a macedada.
 
Gullar - Isso foi em que ano?
Nise - Acho que foi em 1944, quando fui readmitida no serviço público (...) então retomei meu lugar de psiquiatra no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II (CPN), no Engenho de Dentro. E aí começou a minha outra briga, a briga com a psiquiatria, que é mais importante.

Gullar - Como começou essa briga?
Nise - Durante esses anos todos que passei afastada, entrou em voga na psiquiatria uma série de tratamentos e medicamentos novos que antes não se usavam. Aquele miserável daquele português, Egas Moniz, que ganhou o prêmio Nobel, tinha inventado a lobotomia. Outras novidades eram o eletrochoque, o choque de insulina e o de cardiazol. Fui trabalhar numa enfermaria com um médico inteligente, mas que estava adaptado àquelas inovações. Então me disse: "A senhora vai aprender as novas técnicas de tratamento. Vamos começar pelo eletrochoque." Paramos diante da cama de um doente que estava ali para tomar eletrochoque. O psiquiatra apertou o botão e o homem entrou em convulsão. Ele então mandou levar aquele paciente para a enfermeira e pediu que trouxessem outro. Quando o novo paciente ficou pronto para a aplicação do choque, o médico disse: "Aperte o botão." E eu respondi: "Não aperto." Aí começou a rebelde.
 
Gullar - Começou a nova briga.
Nise - A nova briga foi horrível. Um dia apliquei choque de insulina em uma paciente e a mulher depois não acordava. Aflita, apliquei-lhe soro glicosado na veia e nada da mulher acordar. Tentei de novo, até que consegui. Aí disse: "Nunca mais." Fui falar com o diretor geral do Centro Psiquiátrico Nacional, que se chamava Paulo Elejalde, um homem inteligente, que gostava de ler, tinha uma biblioteca muito boa, até me emprestou livros. "O que eu vou fazer com você?" ele me disse. "Não tenho onde botar você. Todas as enfermarias seguem a linha desses medicamentos novos. Fora disso, só há a Terapêutica Ocupacional, que é para serventes."
 
Gullar - Como para serventes? Quem tomava conta eram serventes?
Nise - Sim, não havia médicos ali. Os serventes limpavam, arrumavam. Talvez houvesse um capataz qualquer que tomava conta. Eu disse: "Eu quero ir pra lá. Mas vou fazer de lá outra coisa." Ele concordou, e disse que eu podia usar como quisesse a pequena verba destinada ao setor. Então, fui pra lá e abri a primeira sala: a sala de costura.
 
Gullar - Como era esse serviço antes?
Nise - Os doentes eram usados para varrer, limpar os vasos sanitários, servir os outros doentes.

Gullar - Aí criou a sala de modelagem, a de pintura...
Nise - Trabalhava na administração do hospital um rapaz chamado Almir Mavignier, que era um péssimo funcionário burocrático, totalmente inadaptado. Como era estudante de pintura, pediu ao diretor para ir trabalhar comigo na sala de pintura. Chegou, viu os quadros que os doentes tinham pintado e se surpreendeu. Trouxe Mário Pedrosa pra ver, e este ficou estupefacto. No dia seguinte, trouxe nada mais nada menos que o primeiro diretor do Museu de Arte Moderna de São Paulo, um francês chamado Leon Degand, que se encontrava no Rio naquela ocasião. Ele se deslumbrou.
 
Gullar - Isso foi quando, em 49?
Nise - Exatamente em 49. Ele sugeriu então fazermos uma exposição daquelas obras no MAM de São Paulo.

Gullar - Naquela altura, você ainda não tinha nenhuma formulação teórica sobre a terapêutica ocupacional, tinha?
Nise - Tinha. Apaixonei-me pelo serviço de terapêutica ocupacional de uma cidade alemã onde existia um hospital de crianças. Lá não havia doente algum ocioso. Todo mundo trabalhava em atividades diferentes. Fui para a Alemanha conhecer esse trabalho. Além disso, eu lia muito. Sempre fui rato de biblioteca. Lia sobre psicologia e me apaixonei perdidamente pela psicologia junguiana. Eu acabara de comprar um livro de Jung, Psichology and Alchemy, quando me encontrei com Bandeira de Melo, que também se interessava por Jung, e lia muito bem inglês. Propus a ele que criássemos um grupo de estudos de Jung e ele topou.
 
Gullar - Vamos falar de sua experiência com os bichos lá no Centro Psiquiátrico?
Nise - Vamos. Bicho é comigo... Mas antes, quero falar de uma quadra de esportes... Naquele tempo havia intercâmbio que permitia estudantes de um país ir fazer estágio em outro. Então, veio para o CPN um estudante estrangeiro que me ajudou muito chamado Pierre Le Gallais. Ele ficou um tempo a serviço do Maurício de Medeiros, diretor do CPN, mas circulava por todo o hospital. Quando conheceu o nosso trabalho, que estava começando na STOR, e que não tinha nada dos tratamentos em voga naquela época, ele se encantou. Pediu ao Medeiros para ser transferido para o meu setor, onde se estudavam coisas como o espaço e o tempo na esquizofrenia, coisas que ele só tinha visto na Europa. Foi então que tive mais uma de minhas loucuras. Sabendo que ele tinha sido campeão olímpico na França, lhe perguntei: "Pierre, você sabe as dimensões exatas de uma quadra de vôlei? Ele disse: "Claro que sei". E eu: "Então, vai fazer a quadra." Jamais um funcionário do hospital pegaria numa pá. Ele não teve a menor dúvida. E foi durante essas escavações que foi encontrada a histórica cadelinha Caralâmpia, que tinha sido rejeitada pelos donos. Botei nela o nome de Caralâmpia, que também era um apelido meu, e entreguei a cachorrinha para um doente, o Alfredo, tomar conta. E ele tomou conta tão bem dela que se curou. E eu então peguei-o pelo braço e o levei ao diretor: "Está aqui uma pessoa erradamente internada como docente e que deve ser nomeada monitor". E assim ele, de doente, passou a monitor de encadernação, graças ao tratamento de Caralâmpia.

Gullar - E depois de Caralâmpia?
Nise - Sempre apareciam outros animais que tinham sido rejeitados pelos donos... e nós fomos adotando esses animais. Mas eu não tinha uma pessoa que se ocupasse especialmente deles. O pessoal da cozinha dava comida, outros enxotavam... Foi quando surgiu uma monitora, chamada Nazareth, que se ofereceu para tomar conta deles. Mas alguns médicos, que se opunham à presença dos bichos, ali, fizeram uma denúncia ao Instituto de Veterinária, para que os cães fossem expulsos.

Gullar - Eles alegavam que os cães sujavam o hospital e com isso provocariam doenças nos internos?
Nise - Resolvi estudar o assunto mais a fundo. Descobri um norte-americano, Boris Levinson, professor universitário, que trabalhava com crianças e cães. Ele dera aos bichos, que ajudavam no tratamento, o título de co-terapautas. Um estudo comparativo realizado num hospital norte-americano entre duas enfermarias idênticas, exceto pelo fato de que uma delas usava animais de estimação, demonstrou estatisticamente que o nível de medicação foi o dobro na enfermaria onde não havia animais, o mesmo acontecendo com o nível de violência e tentativas de suicídio. Eu aí tratei de me aproximar mais do professor norte-americano. Foi quando mataram um cachorro que era meu co-terapeuta e estava ligado a um doente. O professor escreveu: "Cortaram a única line-life que ele tinha com o mundo." O pessoal aqui ficou indignado porque americano eles respeitam...

Gullar - Mataram muitos cães?
Nise - Verdadeira matança. Espalhavam "bolas" - comida com veneno - por ali, os bichos comiam e morriam. Num só dia, morreram nove.

Gullar - É verdade que houve um diretor do CPN para quem as obras do MII não eram pintadas pelos docentes?
Nise - Houve, sim, o dr. Carvalho. Ele dizia que eu levava, de noite, às escondidas, quadros de Di Cavalcanti, Portinari e outros artistas para o museu, e dizia que eram pintados pelos internos. (Risos).

Gullar - Inacreditável.
Nise - Pra você ver. Ele tentou proibir uma exposição que organizamos em homenagem a Carlos Pertuis, que havia morrido há pouco. Mas nós ligamos para nossos amigos, artistas, intelectuais, jornalistas, críticos, e essa gente toda ao chegar para o vernissage encontrou a porta fechada. Temendo o escândalo, ele mandou abrir a exposição.

Gullar - O que ele pretendia com isso?
Nise - Evitar que o nosso trabalho, rebelde às normas estabelecidas, ganhasse projeção e prestígio. Muitos funcionários do hospital, e sobretudo médicos, diziam-me pessoalmente e mesmo em assembléias: "Se vocês se queixam da falta de recursos para material da TO, por que não vendem esses quadros que tantos apreciam?" Incompreensão total. Se fossem vendidas as pinturas, esculturas e outros objetos, não existiria museu algum. Dá pra entender? Seriam dispersadas as formas reveladoras do interior da psique, isto é, o material que verdadeiramente interessa à psiquiatria.

COMENTÁRIOS:(5)

  • 2/4/2010 10:08:22
    Nome:ASSIS CARVALHO
    Comentário:Há um belo filme dirigido por Leon Hirszman de 1987, chamado IMAGENS DO INCONSCIENTE, retratando os trabalhos nos ateliês de pintura e de modelagem da Seção de Terapêutica Ocupacional, organizada por Nise da Silveira em 1946, no Centro Psiquiátrico Pedro II, Rio de Janeiro.

  • 2/4/2010 13:01:03
    Nome:CÉLIA
    Site / Blog:http://sensivelldesafio.zip.net
    Comentário:Na linha das representações artísticas feitas a partir do trabalho de Nise da Silveira, não da pra esquecer Anjo Duro, espetáculo teatral escrito e dirigido por Luiz Valcazaras, que trouxe um "diálogo" entre Nise e Spinoza, através de uma suposta correspondência entre os dois. O espetáculo deu a Berta Zemel o prêmio Shell de Melhor Atriz de 2000 por sua atuação estupenda. Falando nisso, onde andará Berta Zemel??

  • 2/4/2010 13:09:50
    Nome:CÉLIA
    Site / Blog:http://sensivelldesafio.zip.net
    Comentário:Srs. psicanalistas, e não custa lembrar que a Nise da Silveira dizia que "gente muito curada é chata..."

  • 7/4/2010 17:18:59
    Nome:ÁLVARO
    Comentário:Assis, onde eu consigo este filme? Obrigado.

  • 7/4/2010 18:19:01
    Nome:ASSIS CARVALHO
    Comentário:ÁLVARO - (e demais interessados) Este filme foi produzido pela FUNARTE mas, infelizmente, não foi devidamente distribuído. Em São Paulo, você pode encontrá-lo para locação no Instituto Sedes Sapientiae (f. 3866-2730), dividido em três DVDs: 1) Em busca do espaço cotidiano 2) No reino das mães 3) A barca do sol

Envie seu comentário

voltar

Irmãs Ross...Uma relíquia
Fantásticas, famosas na época.

.

Psicotramas

16/08 - Lançamento do livro Crônica de uma Ilha Vaga
Núcleos de Formação Permanente no CEP

Psicorama © - Todos os Direitos Reservados
psicorama@psicorama.com.br

MFSete