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A VIDA SECRETA DOS DENTISTAS

26/8/2009

Gostei bastante de "The Secret Lives of Dentists"!
 
Talvez fosse melhor ainda sem o personagem do Dennis Leary, uma espécie de cárie do casal, o asa-negra sobre o (inevitável?) grief ao qual a autora do romance que o inspirou ("The Age of Grief") refere-se. Nem sei se ele existe lá como personagem ou citado, mas adoro a solidão inexorável do casal, a Hope Davis (desempenho sensível e soberbo) emitindo seus trinados domésticos do "Nabucco" de Verdi, que serão solenemente ignorados por seus amados filhos e marido. Solidão mesmo acompanhada... (gosto muito da solução de roteiro dela ser amada pelos seus mas não ter acesso a essa vitória!).
 
A solução natural passa, claro, pelo amante-compreensivo, que o filme abordará delicadamente en passant. Tudo fica me soando, então, como um calvário tranquilo, talvez intransponível. Ela usando seus derivativos para aturar os achaques dos filhos e arestas intransponíveis com o marido; este prisioneiro de suas desmoronadas ilusões e tornado refém de fantasias eróticas de traição de sua outrora comportadíssima esposa. Que, de resto, continua comportada!
 
O que muda é o imaginário dele...
 
O entrecho dramático é muito bem urdido, por que ela é ignorada/amada em casa em doses justas. Seja: a desgraça dessa mulher vem da justiça absoluta... Sonha com os recitais no "Nabucco" de Verdi, cantarola passagens que comovem-na às vísceras, diante da indiferença e desdém familiar (marido mais duas filhas difíceis). O que fazer? Atirar para o alto todos os entes?
 
Jean Baudrillard acena com a "vertigem da presença pura" diante dessa impossibilidade de sermos livres ou representados. Vai ainda mais longe: diz que "nem mais precisamos de ser livres ou estarmos representados" (???!!!) isto pode ajudar, causa orgulho, reverencia Schiller. É um forte lenitivo. Mas ninguém é de ferro: um dia a nossa dentista precisa - ainda bem! - de uma mão verdadeira a acariciar as maçãs de seu rosto... e precisará casar as pedras de seu quebra-cabeça.

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