POIZÉ

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OS ALIENISTAS

23/7/2009

As instituições são curiosas e produzem efeitos paradoxais; assim como o coração, só se fazem sentir quando não estão bem.

Em seu processo de constituição-institucionalização-burocratização, caminho trilhado por todas, provocam outro paradoxo: produzem e amplificam aquilo a que vieram pra cuidar: a polícia vira escola de crime, a escola deseduca, os hospitais adoecem, a instituição psiquiátrica enlouquece. Daria mangas pra pano pensar em algumas outras: a igreja, a magistratura, os partidos políticos - pensem e pasmem, no casamento, por exemplo.
 
Michel Foucault discute em algumas obras a constituição do campo do saber psiquiátrico - a loucura, a normatização da alienação, o confronto discursivo entre a medicina e o direito no arrebanhamento corporativo do enlouquecimento, a medicalização, a instituição dos asilos. Na ironicamente chamada "La Maison Dieu", na França, os alienistas e os religiosos trancafiavam os esquizofrênicos, os idiotas, e também os bêbados de sarjeta, as prostitutas, os desempregados e vadios, e toda sorte de desviantes da conduta dita normal; normal vírgula, a adequada para os enquadres sociais do KAPITALismo doutrinante.

Quem mesmo escreveu: "Ou todos somos loucos ou ninguém é louco"?
 
Essa praga asilar foi espetacularmente romanceada em "O Alienista", de Machado de Assis: "Supondo o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia, e só insânia" - proclamava Simão Bacamarte, o protagonista-alienista.
 
Machadinho é mestre do realismo, e sua novela inaugurava o gênero literário no Brasil. Apesar de sua admoestação, os hospícios tornaram-se a prisão dos incorretos da norma; proliferaram - cruel hospedaria -  vermes na morte.

Repugnância, vejam qualquer foto de asilo psiquiátrico; indecente qualquer condescendência. E uma rede de sustentação mundial se formou  nos emblemáticos anos 68 aos berros de Franco Basaglia, em "A Instituição Negada" -  encerrava-se o período negro da mancomunação entre mal-saber médico, subordinação religiosa e empreendedorismo sem fronteiras.
 
Os corpos foram soltos, mas as mentes perambulam penadas por aí...como se, por um milagre legislativo, a loucura pudesse ser alforriada. Contardo Calligaris na Folha de 23/07/09 arremata: "... o movimento antipsiquiátrico (mas não a lei 10.216) acarretou consigo uma negação da doença mental. Atribuir o sofrimento dos pacientes à repressão manicomial de sua diferença era uma ingenuidade que só se explica considerando o seguinte: o movimento antipsiquiátrico foi, antes de mais nada, um movimento de liberação dos próprios psiquiatras, que se recusaram a continuar exercendo uma função de carcereiros e guardiões da ‘normalidade’."
 
Mas acreditem, a loucura existe e dói. Como dói.
 
 
Internação

Ele entrava em surto
E o pai o levava de
carro para
a clínica
ali no Humaitá numa
tarde atravessada
de brisas e
 falou
       (depois de meses
trancado no
fundo escuro de
sua alma)
pai
o vento no rosto
é sonho, sabia?
 
[Ferreira Gullar, poeta, pai de dois filhos esquizofrênicos - reacende a discussão sobre reforma psiquiátrica no Brasil efetivada no Brasil na lei 10.216 de 2001]


Lin-do poema. O vento no rosto é sonho... E não é isso mesmo?

Quem nos sonha e dói na gente? A dor mental, que se transmite sem se gastar, que se agarra ao inocente... como ajudar??

COMENTÁRIOS:(2)

  • 28/7/2009 00:58:00
    Nome:HEIDI
    Comentário:Belo texto, Luiz.

  • 10/10/2009 00:28:43
    Nome:LOREDANA
    Site / Blog:www,psicorama.com.br
    Comentário:Que tal: "Metade de mim é amor. A outra metade também." Conforme já dizia 'seu' Montenegro.

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