POIZÉ

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INVEJA DE QUÊ, CARA PÁLIDA?

8/9/2009

Dia destes encontrei um divã e não foi numa sessão de análise. Encontrei-o por acaso na sala de uma amiga, cujo pai foi psicanalista e deixou de herança um divã azul e estiloso. Primeiro me reclinei sobre ele como uma personagem dos festins de Roma, a quem só faltava o cacho de uvas. E pensei que o divã deve ter cativado os romanos possivelmente por influência da Grécia, em territórios e épocas dedicados por excelência ao ócio, ao prazer e ao devaneio.
 
Bem mais tarde a peça de mobiliário ganharia outra função, quando Freud o elegeu o “encosto” ideal para múltiplas viagens ao inconsciente. Não era nada bobo o Dr. Freud. Porque era preciso deixar as pessoas à vontade em qualquer  tentativa de descobrirem a si mesmas. E não seria num consultório frio, numa cadeira desconfortável e com olhos quase inquisidores pousados sobre nossas queixas que, enfim, nos descobriríamos. Então, o divã entrou no consultório e o de Freud era lindo, como se vê em fotos que mostram aquele móvel recoberto por mantas e almofadas, com aconchego de ninho, onde o inconsciente se abre sob a senha do conforto máximo, acolchoado e macio.
 
Naquele divã, saindo de Roma com a mente voltada para o início do século 20, fui tomada por certezas e dúvidas sobre as teorias de Freud. Não, não conheço bem suas teorias. Embora toda cultura contemporânea tenha absorvido conceitos que pontuam conversas corriqueiras com expressões como histeria, complexo de castração ou comportamento edipidiano. O velho Freud paira sobre nossas cabeças, ainda que não sejamos versados em Psicanálise e, assim, o divã me trouxe alguns insights como se antigas vozes voltassem aos meus ouvidos enquanto eu me deitava, simplesmente, para identificar naquele móvel as pegadas de outros inconscientes, nas trilhas do desejo e da repressão.
 
Comecei a pensar de onde Freud teria tirado a ideia de que as mulheres têm inveja do pênis, o que redundaria no inevitável complexo de castração. Ponderei que, na época de Freud, ser homem era muito melhor do que ser mulher. Porque ser mulher, naquele tempo, significava comportar-se como um ser reprimido, estressado, apartado de sua sexualidade, num período em que as fêmeas nem sequer abriam direito as pernas, a não ser na hora do parto. E o parto, embora cercado da idealização do “padecimento no paraíso”, decerto era um momento traumático para as mulheres que pouco conheciam seu próprio corpo, dando à luz, muitas vezes, quando ainda eram quase meninas.
 
Antigos paradigmas foram desmontados lentamente ao longo do século 20. A partir dos anos 60 fala-se da “libertação da mulher”, expressão hoje tão desgastada quanto o seu sentido. Mas o fato é que a “superioridade masculina”, a despeito de todas as revoluções, foi consagrada a partir do atributo do pênis – acatado pelo próprio Freud -  como uma ideia que atravessou gerações, chegando ao nosso tempo ainda como uma sagração que confere força, poder e competitividade aos homens.

Enquanto os meninos exibem seus pênis urinando em jatos de longo alcance, as meninas se agacham timidamente, disfarçando sua condição biológica. Meninos fazem xixi estimulados por um ato de liberdade e brincadeira. Meninas se espremem discretamente e ainda têm que aprender a secar-se com papel higiênico de trás para a frente, num ritual que exige sempre um esforço maior do que o prazer.
 
O que me ocorre, é que em tempos obscuros, Freud também não se abriu para uma inversão de seu raciocínio, considerando que os homens também poderiam sentir inveja do misterioso aparelho sexual feminino, internalizado como uma rosa que não se abria. A censura cultural não lhe permitiu esta ousadia ou mera inversão de valores, a partir de um outro olhar.

Mas todo o potencial feminino estava lá, a ser descoberto em dobras e pétalas de fazer inveja, conduzindo a um labirinto que acaba no útero, uma das mais fantásticas criações da natureza, onde o mistério do desejo, da cópula e da fecundação toma forma. E tudo isto seria muito mais prazeroso se as mulheres não tivessem atravessado séculos de castração não pela falta de um pênis, mas pela falta de conhecimento do seu próprio corpo.
 
Que bem nos teria feito o Dr. Freud se em vez de nos acossar com a idéia de “invejar o pênis”, tivesse nos alertado mais firmemente para a presença de um botãozinho mágico entre as nossas pernas que, uma vez acionado, pode nos levar ao verdadeiro paraíso sem padecimentos. É inegável a contribuição de Freud para a descoberta e valorização da sexualidade feminina, mas falar em “inveja” nos deixou ainda em situação de tal inferioridade que atrasou  descobertas libertárias que nos encheriam de orgulho e auto-estima. Decerto o doutor levou em conta o tamanho do pênis, possivelmente ereto, em detrimento do nosso diminuto clitóris sem nos alertar que aquele atributo mínimo era tão poderoso quanto o instrumento fálico do maior macho do mundo. Mas tamanho não é documento, Dr. Freud, nem certifica a inveja.
 
O homem é ostensivo por natureza e, da minha parte, admiro aquele enfeite que eles têm entre as pernas, algo assim como o colar de um guerreiro, um penduricalho vistoso que fica ainda mais belo quando majestosamente ereto, a nos prestar reverências sempre bem vindas. Por outro lado, é prazeroso demais sermos donas de uma jóia tão internalizada, um broche em formato de pétalas que ainda conta com um botãozinho mágico, um chip oculto a detonar megabytes de prazer do qual ficamos apartadas durante séculos por desconhecimento ou vergonha da própria anatomia, num mundo tomado pelo conhecimento desenvolvido por homens que, embora francamente bem-intencionados, ainda nos tacharam de ...invejosas.

E antes que confundam minha fala, vou logo alertando: Não me considero feminista. Mas sinto um tal prazer e orgulho da feminilidade que não posso acatar o complexo de castração sem questionar firmemente depois de um século: “Afinal, inveja de quê, cara pálida?”
 
 
Contribuição: Célia Musilli

COMENTÁRIOS:(13)

  • 9/9/2009 21:53:00
    Nome:CRISTIANO
    Comentário: Nao sei porque mas esse texto me fez lembrar um pequeno poema de Helena Kolody: "do longo sono na entranha escura da Terra o carbono acorda diamante". Fantastico essa capacidade feminina de gerar diamantes,nao?

  • 9/9/2009 22:08:56
    Nome:JC MILLER JR
    Site / Blog:http://jcmillerjunior.blogspot.com/
    Comentário:AS "invejas" de qq natureza deveriam ser banidas dos sentimentos. Mas como acredito que a natureza humana é má... lá está ela. bjs

  • 9/9/2009 23:42:45
    Nome:EUGÊNIA
    Comentário:Adorei seu texto e agradeço. Não acredito, porém, nas premissas do desconhecimento. Você desconhece o ponto G? Acho que você não; mas uma enorme quantidade de mulheres ainda não puseram o dedo na ferida. E ele está aqui, bem pertinho de onde julgamos que o sexo deva ter uma espécie de central de convulsões do prazer - CCP. Quanto ao Freud, ele falou da sexualidade infantil, do bissexualismo, das taras neuróticas, do inconsciente, da cisão interna. O quê esse cara estava fazendo que não apontou o nosso botãozinho? Estou me perdendo, ainda bem que por pétalas afora... E que bela flôr.

  • 10/9/2009 21:46:54
    Nome:NEUZZA PINHERO
    Site / Blog:www.spiritualsdoorvalho.blogspot.com
    Comentário:Celia querida às vezes penso que homens e mulheres sempre foram inábeis uns com os outros em todos os sentidos e mais ainda nas questões de toque, de sedução, enfim, nisso a que chamamos Amor. Então rola um vazio, como se a gente tivesse o mapa da mina mas não se dispusesse a chegar até lá. Enfim...as nossas sumidades floridas estão sempre à espera daquele colibri... amei seu texto. bj grande

  • 11/9/2009 09:38:18
    Nome:LUIZ HENRIQUE
    Comentário:Estudei "Édipo" com uma professora que é muito querida e, ao desenrolar do trapezismo do "édipo feminino” e do “édipo ao contrário", um colega disse sobre uma sua sobrinha querida:- Ao fazer xixi, a pimpolha de 4 anos me disse com convicção: "Tio, põe a mão bem lá no fundo". Cruzes, eu rezei, as mulheres têm coisas tão fundas... Agora, os caminhos e descaminhos dos passos do "Édipo ao contrário", eu deixo pra outra. E Célia, eu adorei seu texto como um amante das floras.

  • 12/9/2009 19:38:14
    Nome:MARIA ANGÉLICA ABRAMO
    Site / Blog:http://groups.google.com.br/group/atelie-de-aromas
    Comentário:Célia querida, amiga, adorei esse texto lindo! É claro que venero os homens e seus penduricalhos glamorosos e inacreditavelmente anatômicos, explosivos, sem iguais! Entendo também a mulher na era de Freud. Mas a humanidade ocidental evolui e o tempo avança. A verdade é que hoje a melhor parte ficou com a mulher. Os melhores petiscos da vida e todas as suas sensações estão reservados ao corpo feminino. Nossa anatomia proporciona as grandes e profundas emoções. A nós, talhadas em fundos divinos e misteriosos - nos foi dada a dádiva de viver as grandes e profundas emoções. Veja: somos nós mulheres destemidas que nos entregamos cegamente – por que não dizer, loucamente - as paixões e ao encontro amoroso. Nossas viagens subterrâneas da alma em vésperas de menstruação e o ápice: o parto! E mais, produzimos leite e o mel do sexo. Querida, acredite, nós somos a Terra Prometida! Sem querer generalizar, mas só falando da porção patológica e de apenas uma ínfima parte dos homens - quem sabe a eles, hoje, não lhes caia melhor uma nova teoria sobre complexos esquisitos (rs..) – Para esse “homo apavoradus” tão assustado cheio de medos de sentir todas essas emoções em relação a nós, o que não permite envolvimento e muito menos entrega e com isso, os pobres sabotam o direito de viver o que a vida lhes reserva de melhor, o amor tornado de paixão em fúria e que, de qualquer forma irá acabar lá na frente. Nós sabemos disso, da transitoriedade da paixão e dos amores, mas apesar de tudo, nada tememos!

  • 12/9/2009 23:00:01
    Nome:WAURIDES BREVILHERI JUNIOR
    Comentário:Caríssima Célia, minha conterrânea e pessoa que admiro desde há tempos quando uma grande figura muito especial, o mestre Iran Hollanda, com sua generosidade justa, exaltava com muito afeto e propriedade sua capacidade de expressar em palavras o inefável, aquilo que só pode ser percebido e revelado por alguém que observa com olhos que sentem e com a alma aberta para captar as sutilezas do viver e ser humano que está velado à maioria de nós, homens e mulheres. Como somos completos e plenos apenas em relação aos outros e não em nós mesmos, e lembrando o mestre Humberto Maturana, que diz que viver é conhecer, lendo seus textos de modo geral e, mais especificamente este, tenho a sensação que viajamos em uma estrada que a cada curva vai nos revelando o quanto precisamos nos libertar dos paradigmas culturais ultrapassados, nos desnudar das definições pseudo científicas que ainda carregam os resquícios dos preconceitos, da repressão à sensibilidade e da imposição da pequenez. A redescoberta da essência do ser, o caminho para a liberdade, o retorno ao paraíso como descreve Hannemann para explicar a busca da totalidade, são momentos que estão nos convidando a um mergulho à Vida, ao universo que está sintetizado na complementariedade do que virá a ser ainda, um dia, a verdadeira e real percepção do masculino e feminino. Sem hierarquias culturais, mas apenas unidos na igualdade da diferença, da possibilidade de que a existência é um doce mistério, uma aventura a ser compartilhada pelo amor, na vontade de ser a própria vida. Acredito que só é possível compreender as maravilhas ocultas em nossos corpos a partir do momento em que os conceitos individualistas são vencidos pela aceitação da dualidade, para além de Freud, mais próximo do que imaginamos,na magia do amor e do entendimento que a percepção da individualidade é um estágio a ser comprendido e ... superado... a dois. Sou grato a sua natureza inspiradora, que nos presenteia com pensamentos e observações que são próprios de quem aposta na Vida, na tentativa de compreender, mas sem nunca impor, mas nos sugerindo a reflexão, um mergulho ao entendimento por ângulos que nos trazem um sopro de intensidade, suave e consistente. beijo em seu coração dourado.

  • 14/9/2009 13:47:26
    Nome:CÉLIA MUSILLI
    Site / Blog:http://sensivelldesafio.zip.net
    Comentário:Agradeço a todos pelos comentários.Eugenia, vc diz não acreditar nas "premissas do desconhecimento", mas te digo que no tempo de Freud as mulheres conheciam mal o próprio corpo, minha avó nunca ouviu falar de Ponto G e sei que uma de suas comadres, escondeu-se atrás do guarda-roupa na noite de núpcias para que o marido não a alcançasse..rs. Por aí vc vê. Hoje, as mulheres, pelo menos teoricamente, conhecem o Ponto G, o H, I,J K e L e, mesmo assim, algumas reclamam da falta de um prazer real..É que o sexo virou uma atração midiática, performance, e muitas estão mais preocupadas com as caras e bocas que fazem na hora H do que em...sentir. Neuzza, adorei a imagem das "sumidades floridas à espera de um colibri" e te desejo voos e um feliz encontro de asas... Maria Angélica, grata pela poética do seu ponto de vista pra lá de feminino.Luiz Henrique, gostaria muito de saber desta história de "Édipo ao contrário" porque me interesso bastante pelos avessos e minha intenção, neste texto, era justamente inverter o olhar e provocar os contrários. Grata pelas lembranças Walrides e a todos pela atenção e as ideias. Até a próxima.Bjs.

  • 8/9/2013 06:33:34
    Nome:CON2FWD2WTG3
    Site / Blog://www.facebook.com/profile.php?id=100003443756806
    Comentário:Very true,Governments tell us we should save what we can for our furetus,and now we see why! It's so we cant get any benefits during hard times out of work or travelling many miles to low paid part time insecure work.Penalise the prudent and give all to those who drink and smoke their money-Tory Policy!!

  • 9/9/2013 08:45:12
    Nome:RSOERBEIYV
    Site / Blog://www.facebook.com/profile.php?id=100003443487052
    Comentário:I find it truly disturbing that you would list Mao as a Great Critical"//nevbnwh.com"> tikehnr. He is responsible for the deaths of millions and you list him as a great"//nevbnwh.com"> tikehnr! Perhaps you should re-evaluate your own critical thinking process!

  • 9/9/2013 16:16:50
    Nome:THFF0LCOHS
    Site / Blog://www.facebook.com/profile.php?id=100003443784995
    Comentário:I love this story. I could feel the change as Lauren began to cretae joy. I wonder though why you think this is somehow an unconscious' within Lauren lying hidden' from her? This implies an interiority which is personal but unknown. I guess there may be a vast repository of a lifetime's sensory, cognitive and emotional data, which can be drawn on when the interaction demands the creation of a new story. But how is this different from any narrative fiction writing? I once asked a client what it would be like if she regarded the world as inherently benign (she experienced it as hostile). She went on to do well. Perspective shift/different filters (co)cretae a new reality. Not sure we need much more than right now. //atkizcayzyw.com [url=//xqjzmzfubh.com]xqjzmzfubh[/url] [link=//obvupozq.com]obvupozq[/link]

  • 9/9/2013 21:30:13
    Nome:OXWWZGNY1IGH
    Site / Blog://www.facebook.com/profile.php?id=100003443695344
    Comentário:. Of course it is "//zzsqxcighho.com">teimtpng to think it is sensory memory she's drawing on as she mentions everyday activities and experiences (hugs son, rides on bus, talks with daughter which may well have happened at some time in past). I do love your gathering Freud into the community of Brief therapists and if it is necessary to find a connection with unconscious then I can live with that smiling as i consider Steve's adoption of Words were Originally Magic for what remains a favourite read I return to regularly.svea

  • 10/9/2013 23:09:29
    Nome:309AITRI
    Site / Blog://www.facebook.com/profile.php?id=100003443489081
    Comentário:Ah, ce2t despre ftuapl că visezi ure2t, nu-i nevoie de nici un papa Freud. Pur ÅŸi simplu Å£i-e frică: de viitor, de asumarea vieÅ£ii sau a căii alese //brwqyotn.com [url=//ljgvvdxb.com]ljgvvdxb[/url] [link=//gtwlehvayc.com]gtwlehvayc[/link]

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