POIZÉ

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CORPO SEM NEXO

10/3/2010

Adaptado do magnífico romance The Sheltering Sky de Paul Bowles, adoro quando Port diz (no filme é o próprio Bowles quem recita essas linhas, em bela solução do Bertolucci! É lindo!!!!):
 
"... a morte está sempre no caminho, porém o fato de nunca se saber quando ela chegará, parece amenizar o caráter finito da vida. É aquela precisão terrível que odiamos tanto. E como não sabemos, temos a tendência a encarar a vida como um poço inesgotável. Entretanto, tudo só acontece uma determinada quantidade de vezes e, na realidade, uma quantidade muito pequena. Quantas vezes mais lembrar-se-á de uma certa tarde em sua infância, alguma tarde que faz tão profundamente parte de seu ser que não conseguiria imaginar sua vida sem ela? Talvez quatro ou cinco vezes mais. Talvez nem isso. Quantas vezes mais assistirá ao nascimento da lua cheia? Talvez vinte. E, no entanto, tudo parece não ter limites."

*
 
Quando morrem duas tias Marias ao mesmo tempo, algo necessariamente se move em torno do seu ciclo vital – um Acontecimento. E às vezes acontece, você fica atônito e, como se mais uma vez não reconhecesse a verdade cabal, fica com medo. É algo que desconhece, é o Nada. E o Nada, como desconhecido, só pode ser uma suspeita.  E fica com medo porque se aproximou da verdade única e essa verdade chama-se Morte. Está ali, na sua frente, o corpo mais frio do mundo, o corpo sem nexo.

Morte, bato três vezes na madeira mágica quando falo seu nome. Uma madeira divina, não é mesmo? Toc-toc-toc: e haja pensamento mágico! Mas até pensamento mágico tem valia como defesa contra a dor que nos causa esse tremendo destino que nos espera. Afinal, do futuro é a única certeza que temos.

Sabemos que os Tabus não devem ser tocados. Mas eles nos tocam, e  o tempo todo, e  sem pedir licença. Estão sempre rondando por aí enquanto negamos continuamente suas existências. Temos medo de reconhecê-los tão próximos.

E cabe até poesia na dor: no momento do último olhar, alguém sugere que ela, a Tia Maria, gostava da música Carinhoso. E um coro de anjos brotou ao meu lado: "Ah se tu soubesses o muito muito que te quero...."

Há uma hora fria e absolutamente cortante: a hora de virar as costas para o túmulo. Todos se retirando desconsertados, meio aliviados, titubeantes  e quase dissimulados. Corpo apartado de mim. Fica aí nessa campa fazendo parte do nexo, fica aí significando a Coisa sem nexo. Faça a comunhão final. E, lá no fundo, aquele ruído de fundo: cá te aguardo. 

E o que resta, absolutamente incompreensível, é aquela Imagem – a do corpo sem nexo.

A Coisa, de dureza incontornável, é a do absoluto real onde é impossível qualquer alteridade. 

A lápide logo estampará sua imagem num retrato antigo: como era bonita a Tia Maria!

Morrer é vital, já dizia Santo Agostinho.

COMENTÁRIOS:(2)

  • 11/3/2010 08:42:39
    Nome:PIERRE
    Comentário:Lembrete: EXISTENCIALISMO MATA!

  • 12/3/2010 23:27:25
    Nome:ANTONIETA
    Comentário:Gostar do cunhado é tabu? E a gente não pode tocar? Meu avô tem me olhado de um jeito estranho...e eu acho que isso é tabu ou taradice nossa... E ter tesão por terapeuta bem mais velho que eu,é tabu? Quantos são os tabus? Mais que oito?

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