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TRANSEXUALIDADE

16/3/2010

O transexualismo não é mais doença na França. O país rompeu na última semana com o doutrinarismo psiquiátrico americano que tipifica os tipos humanos em transtornos. Rompeu com o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, a bíblia psiquiátrica americana que é seguida pela Organização Mundial da Saúde,  e que classifica o transexualismo como "transtorno da identidade de gênero" dentro da categoria das "disfunções sexuais". Um manual bem urdido pela psiquiatria para ampliar sua clientela potencial.

Algo muda, L E N T A M E N T E. Em 1983, o homossexualismo foi retirado da lista.
 
Nos idos de Uberlândia só existia dois loucos: a Garrafa e o Jaratataca. Eram alvo certeiro para a malvada execração infantil. A Garrafa, uma negra alta, muito pobre, muito magra, muito acuada pelas ruas aos gritos hostis de: Garrafa! Garrafa!, e  era como ver  o próprio negrume a se recolher nos ocos das tardes. Já com o Jaratataca, a brincadeira era fazê-lo falar seu nome: ele dava corda no seu ouvido com o dedo indicador, tentava falar quase-pegando, mas falava, e se arregalava de rir ao ver que seu feito era compartilhado por uma gargalhada de risos, e que os níqueis correriam para seu bolso furado.
 
E existia um viado, o Anselmo. Muito envergonhado, ria tampando as pregas dos lábios com as mãos; sabia-se da façanha com que dava para os meninos mais novos nos terrenos baldios de Uberlândia.
 
Um viado, uma negra e um imbecil: os loucos de Uberlândia há anos. O resto, na moita. 
 
Na França, de hoje, muito é diferente. O transexualismo foi retirado da categoria de doenças mentais nesta semana. Há que comemorar.
 
Obama já nomeou um transexual para um alto posto em sua administração: "Gente, parece gente!". Mas resta a questão da identidade: pode alguém não ser de verdade se não tiver uma identidade X? A terrível, absurda e conveniente questão de uma incerta normalidade psíquica como padrão de normatização social.

*
 
Lacan chega mesmo a dizer que na natureza não existe homem, nem mulher - porque isso é coisa de falante. Usando a referência lacaniana esbarramos numa vertente um bocado grata a Baudrillard também: a da transexualidade.
 
Se em Lacan esse constructo aí de cima soa como quem tem diante de si peças de um quebra-cabeça complexo e vai colocando uma a uma, em Baudrillard o rio flui ao sabor da enxurrada de fenômenos.

A postulação de Lacan contempla uma espacialidade&funcionalidade harmônica, perfeita. Assustadoramente perfeita, pois praticamente fecha o circuito do inteligível. Onde Baudrillard diz "não há Deus por trás das imagens" tá deixando em aberto a lousa pra escrevermos, o céu a desenhar com fumaça, cada "homem" e cada "mulher" a ser inventado. Baudrillard chega a pegar carona com Simone de Beauvoir(!!!) em seu "não se nasce mulher, torna-se mulher".

Porém em termos de mero feeling, e de forma bastante idiossincrática, o pensar de Baudrillard como alguém fazendo canoagem em águas bravias, driblando aquelas pedras de todos os formatos... Ele não sabe onde vai chegar, mas segue movendo as pás com toda força e confiança do mundo, o que é admirável! O tranco do fenômeno nele funciona como encorajamento, ao invés de alguma barreira! O(s) escândalo(s) que o outro causa soa(m) como desafio(s)! Acho fantástico isso.
 
Fechando um pequeno elo dessa corrente, segue um trecho dele sobre transexualidade:

"(...) o corpo sexuado está entregue hoje a uma especie de destino artificial (...) a transexualidade. Transexual não no sentido anatômico mas no sentido mais geral de travestido, do jogo de comutação dos signos do sexo,e, por oposição ao jogo anterior da diferença sexual, do jogo da indiferença social, indiferenciação dos pólos sexuais e indiferença ao sexo como gozo. O sexual tem por objetivo o gozo, o transexual tem por objetivo o artifício. (...) Seja como for, operação cirúrgica ou semi-úrgica, signo ou órgão, trata-se de próteses, e hoje, em que o destino do corpo é tornar-se prótese, é lógico que o modelo de sexualidade se torne a transexualidade, e que esta se torne em toda a parte o espaço da sedução.
Somos todos transexuais. Assim como somos mutantes biológicos em potência, somos transexuais em potência. E não é uma questão de biologia. Somos todos simbolicamente transexuais."
 
[Cêis lembram da Ângela Bismarck, uma falsa loura altona, tipo carroção, que sai nuazinha da silva no Carne-aval?... Ela era esposa de um cirurgião plástico, que foi brutalmente assassinado em casa, inclusive com ela presente - ela ainda responde inquérito policial a respeito. À beira da avenida, a cada ano, após umas 6 cirurgias na trajetória, ambos orgulhavam-se do corpo "esculpido" que iam obtendo. O doktor&maridão colecionava, junto ao bando de fotógrafos, as glórias de mais uma encantada expedição-bisturi-mulher-adentro. A Ângela-não-angelical é um exemplo vívido, retumbante&perfeito desse frenesi mutante, dessa obsessão milimétrica-artificiosa, dessa negação aflitiva da funcionalidade biológica/fisiológica "eleita por Deus"]
 
 
E recomendamos o documentário "Tropic of Capricorn" de Kika Nicolela:
http://vimeo.com/2645954
Vale!  

COMENTÁRIOS:(3)

  • 19/3/2010 15:25:58
    Nome:ASSIS CARVALHO
    Comentário:(uma notícia para pôr mais um caroço no angu)
    BRITÂNICO É RECONHECIDO COMO PESSOA DE GÊNERO SEXUAL NEUTRO
    O britânico Norrie Mai-Welby que diz não se sentir "nem homem nem mulher" conseguiu que as autoridades australianas o reconheçam como uma pessoa de gênero sexual neutro. Mai-Welby, de 48 anos, nasceu homem e se submeteu a uma operação de mudança de sexo em 1990, mas "não se sentiu bem" como mulher. Na semana passada, as autoridades australianas lhe entregaram um documento uma espécie de nova certidão de nascimento reconhecendo-o como um indivíduo de gênero neutro, já que não é possível estabelecer se o corpo de Norrie é masculino ou feminino, segundo o site na internet do tablóide britânico "The Sun". Nascido em Paisley (Escócia), Mai-Welby emigrou para Austrália aos sete anos de idade. "Não me encaixo no conceito de homem ou mulher. A solução mais simples é não ter nenhuma identificação sexual", disse o britânico.
    Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u707857.shtml

  • 19/3/2010 18:39:43
    Nome:ANTONIETA
    Comentário:Um excelente trabalho sobre a recusa da realidade, a começar do próprio corpo, é o livro de Bernard-Penot, "Figuras da Recusa - Aquém do Negativo". Lembro-me de que nos casos clínicos a quem chama de "indivíduos em suspensão", havia um destaque para pessoas que duvidavam de suas raízes culturais: migrantes, filhos de miscigenação, etc.

  • 24/3/2010 10:11:13
    Nome:CÉLIA
    Site / Blog:http://sensiveldesafio.zip.net
    Comentário:Ótimo a ideia da aceitação da transexualidade a partir de novos parâmetros de liberdade no lugar da velha moral. E as novas legislações devem sim incorporar as mudanças. Porém, com todo respeito às transgressões, existe sim diferença entre homem e mulher, como não? Se na natrureza não existe diferença entre homem e mulher, como quer Lacan, por que um homem procuraria transformar seu corpo num corpo de... mulher. E que me perdoe tb Mme. Beauvoir, mas nascemos mulheres sim, com vagina, seios, útero, pele de seda e um coração amanteigado, sendo que este último quesito não constitui privilégio nosso. Mas, felizmente, salvo raríssimas exceções, não temos barba... Então, em vez de negar as diferenças, prefiro um preceito simples: Vive la différence e todas as liberdades que nelas implicam.
    bjss, sem bigode.

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