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O APRISIONAMENTO DA LOUCURA

9/4/2010

"Se você não se comportar, o Febrônio vai te pegar"!

 
Assim se aterrorizavam as crianças  no Brasil nas décadas de 20 e 30 do século passado.
 
Com crimes alardeados pela imprensa da época: assassino, pedófilo e "homossexual" - Febrônio foi protagonista de um embate jurídico e tornou-se o primeiro ser inimputável no Brasil-sil-sil. Um louco de fato e de direito.
 
Esse homem, preto-pobre-psicótico, condições que muitas vezes andam juntas e excluem o ser da vida social plena, foi condenado à segregação ad vitam. O interno número 000001 do Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro passou 57 anos recluso onde morreu aos 89 anos to-tal-men-te demenciado. 
 
 
 
[Uma amiga psicanalista falou-me um dia sobre o atordoamento que aniquila os psicóticos: viver como se estivesse sempre com um enxame de abelhas zunindo em torno da cabeça. Bion, considerou o psiquismo como uma máquina de pensar pensamentos; os protopensamentos (elementos ß) teriam que ser assimilados e incorporados no psiquismo; quando o psiquismo não pode se integrar, o tal enxame enlouquecedor se estabelece. Os neuróticos em crises de fragmentação têm notícias do que é isso...]
 
Vocês já viram caras que urram? Urram de dor. A loucura dói e a esquizofrenia é uma das mais empobrecidas defesas humanas. 
 
 
 
 
Com uma prosa apocalíptica&tumultuada, comum na comunicação esquizofrênica, foi tido por muitos como um dos precursores do surrealismo no Brasil e inspirador do escritor francês Blaise Cendrars e também do modernista Mário de Andrade.
 
 "Revelações do Príncipe do Fogo", seu livro-bíblia, por ele mesmo editado,  pregava sua ensandecida religião. Seu emblema - DLVXVI EIS O FILHO DA LUZ - era marcado a ferro em brasa no seu corpo e em suas vítimas - um herege perfeito. Quando preso, em gozo&glória, os exemplares de seu livro, solução besta, foram queimados em praça pública.

Em toda polêmica que dominou o  noticiário, Febrônio foi ficando de escanteio. O que mais se relevava era  uma batalha entre o discurso jurídico e o discurso médico. Não era bem o Febrônio que estava sendo julgado, nem mesmo O Príncipe do Fogo. Estava sendo julgado todo o cipoal de regras sociais&doutrinas que formam a complexa relação entre ciências jurídicas e médicas. A Medicina fincou seus pés na justiça criminal, num patamar provavelmente acima do próprio Direito e inaugurou o primeiro asilo prisional do país.

Febrônio Índio do Brasil, o homem que, como o francês Pierre Rivière ("Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão"), foi o marco da intervenção psiquiátrica na jurisprudência brasileira. E já daí, as marcas comuns às instituições totais - prisões, asilos, reformatórios: exclusão, abandono, mais dor&doença.

COMENTÁRIOS:(2)

  • 15/4/2010 23:44:44
    Nome:ANTONIETA
    Comentário:Pobre é mais louco que rico? Dinheiro explica?

  • 15/4/2010 23:46:32
    Nome:ANTONIETTA
    Comentário:Quanto custa a sessão?

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